DISCURSO FEITO NA CERIMÔNIA DE FORMATURA DOS ALUNOS DO CEM 05 DE 2004
PEDRO LACERDA
“PROVISORIAMENTE NÃO CANTAREMOS O AMOR,
QUE SE REFUGIOU MAIS ABAIXO, NOS SUBTERRÂNEOS.
CANTAREMOS O MEDO, QUE ESTERILIZA OS BRAÇOS.
NÃO CANTAREMOS O ÓDIO PORQUE ESTE NÃO EXISTE.
EXISTE APENAS O MEDO, NOSSO PAI E NOSSO COMPANHEIRO.
O MEDO DOS GRANDES SERTÕES, O MEDO DOS MARES, DOS DESERTOS.
O MEDO DOS SOLDADOS, O MEDO DAS MÃES, O MEDO DAS IGREJAS.
CANTAREMOS O MEDO DOS DITADORES, O MEDO DOS DEMOCRATAS.
CANTAREMOS O MEDO DA MORTE E O MEDO DE DEPOIS DA MORTE.
DEPOIS MORREREMOS DE MEDO
E SOBRE NOSSOS TÚMULOS NASCERÃO FLORES AMARELAS E MEDROSAS”.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
ESTE POEMA NÃO SERVE PARA VOCÊS ALUNOS TÃO CORAJOSOS QUE NOS ENSINARAM A MAIOR E A MAIS VALIOSA DAS LIÇÕES: DE QUE É PRECISO, ACIMA DE TUDO LUTAR.
NESSES ANOS DE TRABALHO QUE NÓS PROFESSORES DESENVOLVEMOS NO CINCO, QUANTOS ALUNOS PASSARAM POR NOSSAS MÃOS?
MILHARES. COM CERTEZA. EM ALGUNS CASOS FAMILIAS INTEIRAS SE FORMARAM NAQUELA ESCOLA.
QUANTAS EXPERIÊNCIAS FORAM REALIZADAS NAQUELE ESPAÇO.
EM 1999, POR EXEMPLO, INICIAMOS A REALIZAÇÃO DE EVENTOS CUJA PREOCUPAÇÃO ERA CONTRIBUIR PARA A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO COLETIVO NAS DIVERSAS ÁREAS. REALIZAMOS A I SEMANA DO MEIO AMBIENTE.
A SEMANA DO MEIO AMBIENTE ERA O PONTO DE PARTIDA DE UM PROJETO MAIS AMPLO DE FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA ÉTICO-ECOLÓGICA E DE INSERÇÃO CRÍTICA DO ALUNO NO CONTEXTO SOCIAL DE SUA CIDADE.
AS OUTRAS EDIÇÕES DESSE EVENTO EM 2000, 2001, 2002 E 2003 CONTARAM COM A PARTICIPAÇÃO DE TODAS AS DISCIPLINAS.
AINDA EM 1999 OCORREU A SEMANA DE ARTE, LITERATURA E MOVIMENTO.
EM SÍNTESE, OS DOIS EVENTOS CITADOS TIVERAM EM COMUM A FINALIDADE DE PROPICIAR MOMENTOS DE INTERAÇÃO ENTRE AS DISCIPLINAS, CONTEXTUALIZAÇÃO DOS CONTEÚDOS E DE AMPLIAÇÃO DA VISÃO DE MUNDO.
EM RELAÇÃO ÁS ÁREAS DO CONHECIMENTO NÓS FIZEMOS AVANÇOS QUE SERVEM DE REFERENCIAL À VÁRIOS PROFESSORES:
O TRABALHO COLETIVO DA ÁREA DE CIÊNCIAS HUMANAS.
PROJETO DE PLURALIDADE CULTURAL DE CÓDIGOS E LINGUAGENS.
O PROJETO DANÇA DE RUA QUE FOI REALIZADOS PELOS PROFESSORES DO VESPERTINO
A FEIRA DE CIÊNCIA DA ÁREA DE CIÊNCIAS DA NATUREZA
OS VÁRIOS CICLOS DE DEBATES REALIZADOS
PARABÉNS AOS ÚLTIMOS FORMANDOS DO CEM 05 DE CEILÂNDIA.
QUANDO COMEÇAR 2005, O CINCO NÃO MAIS EXISTIRÁ.
E NÃO EXISTIRÁ POR QUE?
POR QUE OS PROFESSORES E ALUNOS, PRINCIPALMENTE NÃO SE CURVARAM AOS DITAMES DOS PODEROSOS DE PLANTÃO.
NÃO EXISTIRÁ POR QUE PROFESSORES E ALUNOS OUSARAM LUTAR POR UMA ESCOLA PÚBLICA DE BOA QUALIDADE.
E PARA SE TER ESTA ESCOLA DE BOA QUALIDADE ENTENDIAM QUE É NECESSÁRIA TER DUAS CONDIÇÕES ESSENCIAIS:
GESTÃO DEMOCRÁTICA, COM ELEIÇÃO PARA DIRETOR E PARA O CONSELHO ESCOLAR ;
COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA COMO UM ESPAÇO DE FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES, UM ESPAÇO DE DISCUSSÃO DAS ATIVIDADES PEDAGÓGICAS QUE SERÃO REALIZADAS COM OS ALUNOS;
AS AUTORIDADES RESPONSÁVEIS PELA EDUCAÇÃO NO DF NÃO CONSEGUIRAM ENTENDER A LIÇÃO DO PROFESSOR ERASTO FORTES DE QUE “A ESCOLA É, TAMBÉM, UM ESPAÇO DE EXERCÍCIO DE CONTRADIÇÕES, E NESSE SENTIDO, UM MEIO SEMPRE ABERTO À LEGÍTIMA LUTA POLÍTICA PELA CONQUISTA DE POSIÇÕES. ESSA CARACTERÍSTICA REVESTE A INSTITUIÇÃO ESCOLAR DE UMA NATUREZA PARTICULAR, POIS HAVERÁ SEMPRE A POSSIBILIDADE DE UMA COMUNIDADE ESCOLAR, ORGANIZADA E DEMOCRATICAMENTE, REJEITAR AS DIRETRIZES DE UMA POLÍTICA PÚBLICA ADOTADAS PELO GOVERNO. NESTA SITUAÇÃO, A IMPOSIÇÃO DE IDÉIAS OU A INTERVENÇÃO PODEM NÃO SER AS MELHORES SOLUÇÕES PARA OS IMPASSES.”
MAS O CINCO NÃO ACABARÁ JAMAIS. O CEM 5 NÃO É AQUELE PRÉDIO, AQUELE PISO TODO IRREGULAR. NÃO SÃO AQUELAS PAREDES, AQUELE TETO.
O CEM 05 É FORMADO POR ESSES PROFESSORES AQUI, PELOS SERVIDORES, PELOS PAIS, PELOS ALUNOS.
O CEM 05 É FORMADO PELAS IDÉIAS QUE FORAM ELABORADAS COLETIVAMENTE NAQUELE ESPAÇO.
NESSE SENTIDO, O CEM 5 JAMAIS DEIXARÁ DE EXISTIR.
PARA ONDE FORMOS LEVAREMOS O CINCO.
PARA ONDE FORMOS LEVAREMOS O QUE NÓS APREDEMOS NO CINCO.
PARA ONDE FORMOS LEVAREMOS A CORAGEM QUE EM NÓS NASCEU ALI.
PARA ONDE FORMOS LEVAREMOS A AMIZADE QUE FIZEMOS ALI.
PARA ONDE FORMOS LEVAREMOS AS IDÉIAS DO CINCO.
PARA FINALIZAR GOSTARIA DE LER UM POEMA DE FERNANDO SABINO. E QUE ESTE POEMA SEJA O NOSSO LEMA. PARA NÓS PROFESSORES E ALUNOS QUE TANTO APRENDEMOS NO CINCO.
“DE TUDO, FICARAM TRÊS COISAS:
A CERTEZA DE QUE ESTAMOS SEMPRE COMEÇANDO;
A CERTEZA DE QUE É PRECISO CONTINUAR;
E A CERTEZA DE QUE PODEMOS SER INTERROMPIDOS ANTES DE TERMINAR.
FAÇAMOS DA INTERRUPÇÃO UM CAMINHO NOVO.
DA QUEDA, UM PASSO DE DANÇA,
DO MEDO, UMA ESCADA,
DO SONHO, UMA PONTE,
DA PROCURA, UM ENCONTRO!”
FERNANDO SABINO
domingo, 25 de outubro de 2009
TEMPOS MODERNOS
ROTEIRO PARA O FILME “TEMPOS MODERNOS”
Discutir em duplas ou trios cada eixo do roteiro e apresentar o relatório desta discussão.
1. A condição de rebanho
• No princípio do filme é mostrado um rebanho de carneiros e logo depois é mostrado os trabalhadores se dirigindo ao trabalho. É possível fazer uma comparação entre os trabalhadores e um rebanho? Qual é a condição ou as características do rebanho? Em que medida uma sociedade capitalista como a nossa transforma os trabalhadores em rebanho? É possível a superação dessa condição de rebanho? Se é possível, o que podemos fazer para superá-la?
2. A alienação do trabalho
• A personagem de Chaplin mostra claramente como o processo de mecanização da produção, durante a 1ª Revolução Industrial mudou completamente a concepção de trabalho. Em que sentido essa nova forma de encarar o trabalho contribui para o processo de alienação?
• Por diversos momentos temos a impressão de que o comportamento do operário, no filme, sugere algum tipo de doença mental. A personagem de Chaplin chega mesmo a ser internado num hospício. Até que ponto uma situação produzida socialmente pode interferir no comportamento de uma pessoa? Em que medida o trabalho pode ser um mal? Faça comentários levando-se em conta o texto de Leôncio Basbaum.
• É possível saber o que se estava produzindo naquela fábrica? Relacione esse fato à idéia de divisão radical de tarefas na indústria e alienação trabalho contidas no texto lido.
3. A relação homem e máquina
• Em todo filme é sempre enfatizada a submissão do homem à máquina, principalmente naquela cena da hora do almoço. As máquinas prejudicam ou ajudam o trabalho humano? Como isso se dá? Seria possível as máquinas substituírem os homens? Explique.
4. Condições da classe trabalhadora
• Chaplin denuncia de modo genial vários problemas sociais que estão relacionados aos efeitos causados pela formação das chamadas “Sociedades Industriais”. Relacione alguns desses problemas e comente-os a partir da realidade social brasileira.
Discutir em duplas ou trios cada eixo do roteiro e apresentar o relatório desta discussão.
1. A condição de rebanho
• No princípio do filme é mostrado um rebanho de carneiros e logo depois é mostrado os trabalhadores se dirigindo ao trabalho. É possível fazer uma comparação entre os trabalhadores e um rebanho? Qual é a condição ou as características do rebanho? Em que medida uma sociedade capitalista como a nossa transforma os trabalhadores em rebanho? É possível a superação dessa condição de rebanho? Se é possível, o que podemos fazer para superá-la?
2. A alienação do trabalho
• A personagem de Chaplin mostra claramente como o processo de mecanização da produção, durante a 1ª Revolução Industrial mudou completamente a concepção de trabalho. Em que sentido essa nova forma de encarar o trabalho contribui para o processo de alienação?
• Por diversos momentos temos a impressão de que o comportamento do operário, no filme, sugere algum tipo de doença mental. A personagem de Chaplin chega mesmo a ser internado num hospício. Até que ponto uma situação produzida socialmente pode interferir no comportamento de uma pessoa? Em que medida o trabalho pode ser um mal? Faça comentários levando-se em conta o texto de Leôncio Basbaum.
• É possível saber o que se estava produzindo naquela fábrica? Relacione esse fato à idéia de divisão radical de tarefas na indústria e alienação trabalho contidas no texto lido.
3. A relação homem e máquina
• Em todo filme é sempre enfatizada a submissão do homem à máquina, principalmente naquela cena da hora do almoço. As máquinas prejudicam ou ajudam o trabalho humano? Como isso se dá? Seria possível as máquinas substituírem os homens? Explique.
4. Condições da classe trabalhadora
• Chaplin denuncia de modo genial vários problemas sociais que estão relacionados aos efeitos causados pela formação das chamadas “Sociedades Industriais”. Relacione alguns desses problemas e comente-os a partir da realidade social brasileira.
sábado, 24 de outubro de 2009
LESBIANISMO
POR QUE O LESBIANISMO É UMA FORMA LEGÍTIMA DE AMOR
Por Valéria Meirelles
A mulher atual possui inúmeras possibilidades de ser e estar no mundo. Uma delas envolve o relacionamento amoroso com outras mulheres. Historicamente, a homossexualidade feminina começou no século VII a.C, na Grécia Antiga. Na Ilha de Lesbos vivia a poetisa Safo, que cantava a beleza e o desejo que sentia por suas colegas.
Ainda que as relações entre indivíduos do mesmo sexo existam há milhares de anos, foi apenas em 1980 que a Associação Psiquiátrica Americana deixou de considerar o homossexualismo uma doença. Em 1993 foi a vez da Organização Mundial de Saúde. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina divulgou a mesma decisão em 1985, assim como o Conselho Federal de Psicologia.
Todos esses posicionamentos vieram para ajudar a desconsiderar o modelo heterossexual como única expressão da normalidade, uma vez que a homossexualidade e a heterossexualidade são orientações distintas do comportamento sexual humano e devem ser respeitadas. No entanto, ainda há muitas dificuldades, desde ordem legal até religiosa, pois muitas igrejas não apóiam a união entre pessoas do mesmo sexo.
Mesmo que a Constituição Brasileira no artigo 5º esclareça que "todos são iguais perante à lei sem distinção de qualquer natureza", a legislação não prevê o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o que reflete diretamente em questões como herança ou pensão em caso de morte de um dos cônjuges e a inclusão na declaração do Imposto de Renda. Além desses casos, há ainda a questão da adoção de filhos, que se torna mais difícil quando ambos os pais são do mesmo sexo.
Para acabar com esses problemas, existem no Congresso Nacional projetos que cuidam da cidadania da comunidade Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais (GLTT). Em 13 de maio de 2004, o Ministro da Saúde Humberto Costa, de acordo com a Portaria no. 880/GM dispôs sobre a criação do Comitê Técnico para a formulação de uma proposta para a Política Nacional de Saúde da População de Gays, Lésbicas, Transgêneros e Bissexuais.
Também neste ano, durante a 1ª. Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, foram feitas reivindicações pela união estável e por um novo conceito de família, além de terem sido discutidas políticas educacionais e de saúde voltadas às mulheres lésbicas e bissexuais.
Todo esse quadro acima é para dizer que em pleno século XXI, amar alguém do mesmo sexo e assumir esse amor perante à sociedade não é nada simples. Nas palavras da psicóloga Jane Paim dos Santos, "auto afirmar-se como gay ou lésbica representa antes de mais nada, um desafio e/ou um desacato ao mundo social discriminativo e segregacionista.". Por isso, hoje existem sites, grupos e Ongs que orientam e favorecem trocas de idéias, reflexões a respeito dessa realidade e oferecem apoio. Há ainda a anual Parada do Orgulho Gay que busca sensibilizar a sociedade para os GLTT.
De acordo com Shere Hite, famosa pesquisadora da sexualidade humana, "cerca de 15% das mulheres, no mundo inteiro, sentem prazer em ter relações com outra mulher ou mantém relação sexual estável com outra mulher", e mesmo assim, suas pesquisas revelam que as mulheres ainda sofrem mais preconceitos e são mais vulneráveis à exclusão social que os homens, pois a homossexualidade masculina revelou-se antes à sociedade do que a feminina.
Para Hite, as mulheres homossexuais permanecem marginalizadas, assim como ocorre com as heterossexuais em vários segmentos da sociedade. As lésbicas, segundo a autora, "carregam o duplo fardo de serem mulheres e gays".
Gary Sanders, psicoterapeuta norte-americano confirma as colocações acima e alerta para os fatores de risco da revelação da opção sexual, principalmente no ambiente de trabalho. Por isso muitas mulheres se mantêm na invisibilidade, o que não é bom para o estado emocional nem para a autoconfiança. Porque para uma pessoa estar bem consigo mesma é preciso que todas suas "partes" estejam integradas. Manter-se invisível é como negar uma parte de si e ainda que seja para proteção, invariavelmente acaba tendo efeito negativo para a própria pessoa que fica privada de externar um sentimento significativo. Convenhamos, todos nós gostamos de dizer nosso amor.
A homossexualidade é uma orientação que cada vez mais se legitima, ainda que existam restrições para àquelas que almejam a maternidade, o que não as impede de desejarem e ficarem muito felizes em formar uma família.
Segundo Hite, a *família gay é tão estável e produtiva quanto a família tradicional e a diversidade de escolhas sexuais e modos de vida é absolutamente saudável. Porque os cônjuges ou parceiros também querem que a relação perdure e investem nela, além do mais, pelo menos um deles trabalha e produz como todo cidadão, gerando renda. Daí que não há diferença neste ponto. O que vale é a capacidade para amar e aprender cada vez mais com esse amor, construindo histórias de respeito e felicidade, nas quais haja espaço para a celebração das diferenças e de um mundo mais justo e humano.
É fundamental que se olhe à homossexualidade e nesse caso, a feminina, como afiliação amorosa legítima. Como seres humanos e cidadãos, é preciso no mínimo aceitar o direito de uma pessoa ao amor, não importando se ocorre entre o mesmo sexo ou entre sexos diferentes. É preciso liberar-se de crenças tirânicas que em nada contribuem para o crescimento da sociedade.
À mulher atual, independente de sua classe social, religião ou profissão, cabe mais essa possibilidade, a de porta-voz de transformações e de um amor que até pouco tempo não ousava declarar seu nome.
"Todos os julgamentos são julgamentos para a vida inteira, da mesma forma como todas as sentenças são sentenças de morte".
Oscar Wilde
Por Valéria Meirelles
A mulher atual possui inúmeras possibilidades de ser e estar no mundo. Uma delas envolve o relacionamento amoroso com outras mulheres. Historicamente, a homossexualidade feminina começou no século VII a.C, na Grécia Antiga. Na Ilha de Lesbos vivia a poetisa Safo, que cantava a beleza e o desejo que sentia por suas colegas.
Ainda que as relações entre indivíduos do mesmo sexo existam há milhares de anos, foi apenas em 1980 que a Associação Psiquiátrica Americana deixou de considerar o homossexualismo uma doença. Em 1993 foi a vez da Organização Mundial de Saúde. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina divulgou a mesma decisão em 1985, assim como o Conselho Federal de Psicologia.
Todos esses posicionamentos vieram para ajudar a desconsiderar o modelo heterossexual como única expressão da normalidade, uma vez que a homossexualidade e a heterossexualidade são orientações distintas do comportamento sexual humano e devem ser respeitadas. No entanto, ainda há muitas dificuldades, desde ordem legal até religiosa, pois muitas igrejas não apóiam a união entre pessoas do mesmo sexo.
Mesmo que a Constituição Brasileira no artigo 5º esclareça que "todos são iguais perante à lei sem distinção de qualquer natureza", a legislação não prevê o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o que reflete diretamente em questões como herança ou pensão em caso de morte de um dos cônjuges e a inclusão na declaração do Imposto de Renda. Além desses casos, há ainda a questão da adoção de filhos, que se torna mais difícil quando ambos os pais são do mesmo sexo.
Para acabar com esses problemas, existem no Congresso Nacional projetos que cuidam da cidadania da comunidade Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais (GLTT). Em 13 de maio de 2004, o Ministro da Saúde Humberto Costa, de acordo com a Portaria no. 880/GM dispôs sobre a criação do Comitê Técnico para a formulação de uma proposta para a Política Nacional de Saúde da População de Gays, Lésbicas, Transgêneros e Bissexuais.
Também neste ano, durante a 1ª. Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, foram feitas reivindicações pela união estável e por um novo conceito de família, além de terem sido discutidas políticas educacionais e de saúde voltadas às mulheres lésbicas e bissexuais.
Todo esse quadro acima é para dizer que em pleno século XXI, amar alguém do mesmo sexo e assumir esse amor perante à sociedade não é nada simples. Nas palavras da psicóloga Jane Paim dos Santos, "auto afirmar-se como gay ou lésbica representa antes de mais nada, um desafio e/ou um desacato ao mundo social discriminativo e segregacionista.". Por isso, hoje existem sites, grupos e Ongs que orientam e favorecem trocas de idéias, reflexões a respeito dessa realidade e oferecem apoio. Há ainda a anual Parada do Orgulho Gay que busca sensibilizar a sociedade para os GLTT.
De acordo com Shere Hite, famosa pesquisadora da sexualidade humana, "cerca de 15% das mulheres, no mundo inteiro, sentem prazer em ter relações com outra mulher ou mantém relação sexual estável com outra mulher", e mesmo assim, suas pesquisas revelam que as mulheres ainda sofrem mais preconceitos e são mais vulneráveis à exclusão social que os homens, pois a homossexualidade masculina revelou-se antes à sociedade do que a feminina.
Para Hite, as mulheres homossexuais permanecem marginalizadas, assim como ocorre com as heterossexuais em vários segmentos da sociedade. As lésbicas, segundo a autora, "carregam o duplo fardo de serem mulheres e gays".
Gary Sanders, psicoterapeuta norte-americano confirma as colocações acima e alerta para os fatores de risco da revelação da opção sexual, principalmente no ambiente de trabalho. Por isso muitas mulheres se mantêm na invisibilidade, o que não é bom para o estado emocional nem para a autoconfiança. Porque para uma pessoa estar bem consigo mesma é preciso que todas suas "partes" estejam integradas. Manter-se invisível é como negar uma parte de si e ainda que seja para proteção, invariavelmente acaba tendo efeito negativo para a própria pessoa que fica privada de externar um sentimento significativo. Convenhamos, todos nós gostamos de dizer nosso amor.
A homossexualidade é uma orientação que cada vez mais se legitima, ainda que existam restrições para àquelas que almejam a maternidade, o que não as impede de desejarem e ficarem muito felizes em formar uma família.
Segundo Hite, a *família gay é tão estável e produtiva quanto a família tradicional e a diversidade de escolhas sexuais e modos de vida é absolutamente saudável. Porque os cônjuges ou parceiros também querem que a relação perdure e investem nela, além do mais, pelo menos um deles trabalha e produz como todo cidadão, gerando renda. Daí que não há diferença neste ponto. O que vale é a capacidade para amar e aprender cada vez mais com esse amor, construindo histórias de respeito e felicidade, nas quais haja espaço para a celebração das diferenças e de um mundo mais justo e humano.
É fundamental que se olhe à homossexualidade e nesse caso, a feminina, como afiliação amorosa legítima. Como seres humanos e cidadãos, é preciso no mínimo aceitar o direito de uma pessoa ao amor, não importando se ocorre entre o mesmo sexo ou entre sexos diferentes. É preciso liberar-se de crenças tirânicas que em nada contribuem para o crescimento da sociedade.
À mulher atual, independente de sua classe social, religião ou profissão, cabe mais essa possibilidade, a de porta-voz de transformações e de um amor que até pouco tempo não ousava declarar seu nome.
"Todos os julgamentos são julgamentos para a vida inteira, da mesma forma como todas as sentenças são sentenças de morte".
Oscar Wilde
O Vértice do Triângulo
O Vértice do Triângulo: Relações de Gênero e Sexualidade em Dom Casmurro
Richard Miskolci
O enredo de Dom Casmurro não poderia ser mais simples. O romance parece um retrato de um bacharel aposentado, Bento Santiago, que narra a história de sua vida a partir de seu amor de juventude. Amor que muda os rumos do rapaz prometido ao sacerdócio, o torna um pater familias, mas também o precipita no fracasso. Que fracasso seria esse? Aparentemente, a descoberta de ter sido duplamente traído: por Capitu, sua esposa, com seu melhor amigo, Escobar.
O romance foi lido como uma história de traição por mais de meio século até que a professora norte-americana Helen Caldwell publicou O Otelo Brasileiro de Machado de Assis (1960), livro em que apontou o intuito crítico de Machado com relação ao narrador. Bento Santiago seria um ser corroído pelos ciúmes, que tenta provar para si e para nós, leitores, que foi traído por aqueles em quem mais confiara. A leitura arguta de Caldwell contribuiu pra que fosse possível reler a obra de Machado sob uma nova ótica e finalmente reconhecê-lo como crítico (velado) da elite brasileira de seu tempo. Desde então percebemos que os romances machadianos ainda trazem enigmas a serem desvelados. No caso de Dom Casmurro, permanece o fato de que essa história de amor ou de traição não é a de um casal, mas de um trio. O romance retrata um triângulo amoroso e uma análise que se desviar de qualquer dos possíveis vértices condenar-se-á à parcialidade.
A leitura que segue ambiciona fugir do mero acúmulo de informações adicionais sobre conhecimento já produzido e reler Dom Casmurro sob uma perspectiva sintonizada com a ousadia dos Estudos Culturais acoplada aos avanços teóricos do feminismo e da Teoria Queer.[i] Ao invés de seguir a já tradicional leitura da obra de Machado centrada na análise por relações de classe, meu intuito é mostrar que outras segregações se cruzavam com as econômicas, particularmente a de gênero. Assim, aqui o triângulo não é compreendido como pirâmide social, antes como uma relação amorosa em que a base é a estrutura que mantinha afastado e apartado o vértice: as identidades recusadas e invisibilizadas pela decadente ordem imperial assim como pela burguesa ascendente.
Qual era a base e qual era o vértice inaceitável para a sociedade brasileira em transição da segunda parte do século XIX? No início, o enredo do romance parece ser o de um namoro proibido que termina em um casamento feliz e na formação de uma família nos moldes burgueses. A surpresa que nos reserva o autor é a da quebra da harmonia com a revelação de que o casal era um triângulo e que a harmonia escondia tensões irresolvidas e talvez até mesmo sem solução.
Durante a segunda metade do século XIX, a sociedade brasileira passou por um processo histórico de reestruturação da ordem familiar que pode ser descrito como a substituição da família patriarcal pela burguesa. O aburguesamento tem na família nuclear monogâmica seu alicerce, o que no período republicano em que foi escrito o romance já era evidente. O drama privado e aparentemente intimista do romance revela-se, assim, mais representativo do contexto social brasileiro do fin-de-siècle do que pareceria à primeira vista.[ii]
A história já começa com o pai de Bentinho morto e sua família vivendo no meio urbano e aburguesado do Rio de Janeiro. O rapaz, filho da viúva Dona Glória, é um prometido ao sacerdócio sem vocação para a religião, mas incapaz de reverter a promessa materna por conta própria. Sua libertação do sacerdócio se dará por uma justificativa amorosa (o amor por Capitu) e, sobretudo, pela perspicaz idéia de seu colega de seminário. Escobar, um jovem com talento para os negócios e também sem vocação religiosa, propõe à mãe de Bentinho que patrocine um rapaz pobre que siga a vocação religiosa no lugar de seu filho. O arranjo, revelador da proeminência do poder econômico nas questões religiosas, liberta Bentinho dos votos maternos e o libera para o casamento.
Debruçado sobre o enigma por trás da transformação do supostamente ingênuo Bentinho no amargo Casmurro, Roberto Schwarz afirma que o ponto de mutação se encontra justamente no casamento com Capitu. O ápice do amor do casal termina por se revelar a ascensão de Bentinho à posição de herdeiro, proprietário e, portanto, seu estabelecimento no topo da hierarquia social e econômica.[iii] Ainda que este aspecto seja importante, o episódio que transmuta Bento não é o casamento, antes a morte de seu amigo. O afogamento de Escobar desnorteia o bacharel, o enche de suspeitas sobre Capitu e vira sua vida pelo avesso.[iv]
O pânico com relação à possível traição não se reduz ao ciúme pela esposa, pois não há limite seguro entre desejar o que alguém tem (Capitu) sem desejar esse alguém (Escobar). Aí a chave da paranóia de Bento Santiago que não se dissocia da incerteza sobre a natureza (ou não) homossexual de seus laços com Escobar. Em nossa sociedade, a relação homossocial masculina é aceitável como normal desde que mediada por uma mulher, mas com a morte de Escobar esta mediação passa a assombrar Bento. Por quê? Talvez porque o ciúme não seja dirigido a Capitu por o ter traído, antes porque a traição teria sido com seu amigo secretamente desejado.
Cabe aqui uma reflexão sobre estas relações homossociais masculinas em que as mulheres sempre estão presentes como mediadoras. Estas relações que fundamentam a heterossexualidade baseiam-se em uma parceria masculina no domínio das mulheres. A mulher é, como já observou Claude Lévi-Strauss, um meio para uma relação em que o verdadeiro parceiro é um homem.[v] Mais do que isso, essa relação entre homens mediada por uma mulher dá um tipo particular de poder a eles, pois permite que – conjuntamente e em simetria com a ordem social - subordinem a mulher (e analogamente todas as outras). Desta forma, adquirem masculinidade contra o feminino encarnado e projetado apenas em mulheres, em suma, representado socialmente naquela que media sua relação homossocial.
Utilizo o conceito de desejo homossocial masculino como sendo a “liga” das relações entre homens baseadas na camaradagem.[vi] Uma combinação estruturada entre homofobia e heterossexualidade compulsória marca as relações de gênero e a própria forma que toma a sexualidade na sociedade burguesa. Assim, aproximamo-nos da compreensão da razão pela qual, em fins do século XIX, as relações entre homens sofreram uma grande mudança. As relações homossociais masculinas passaram a ser socialmente mais controladas, de forma a levar a uma diminuição da intimidade entre homens e a uma reestruturação da amizade como periférica à relação com a mulher dentro da família nuclear.[vii] Este novo contexto fez emergir o temor social com relação à proximidade entre homens, até mesmo porque não há estabilidade garantida em uma relação com uma mulher em uma sociedade em que ela é uma moeda de troca entre os homens.
No contexto em que as relações entre homens passam a ser problematizadas socialmente emerge o que podemos denominar como homofobia, ou seja, um complexo mecanismo social de controle das relações entre homens para que elas mantenham sua função de parceria na dominação masculina das mulheres e não caiam no “perigoso” desejo amoroso por um parceiro do mesmo sexo. A homofobia revela-se, assim, um componente essencial na manutenção de toda uma ordem de poder calcada no domínio das mulheres, no casamento e na manutenção da frágil união monogâmica que forma o núcleo da estrutura familiar burguesa.[viii]
A combinação entre homofobia e domínio das mulheres define o que teóricos queer denominam de dispositivo da heterossexualidade compulsória, o que revela tanto o caráter social e histórico da heteronormatividade quanto sua relação necessária com a supostamente “oposta” homossexualidade.
Estudos históricos recentes permitem afirmar que a sociedade brasileira de fins do dezenove é marcada por essa nova ordem estruturante da sexualidade[ix] e vários romances do período permanecem à espera de análises sob esta perspectiva. No caso de Dom Casmurro, isto se torna visível na relação entre Bentinho e Escobar desde a adolescência vivida no seminário até na vida de casados. No ponto de viragem do enredo, Escobar chega a planejar uma viagem conjunta à Europa, o que provoca em Bento pensamentos eróticos sobre uma possível troca de casais. No dia seguinte, chega a notícia inesperada de seu afogamento. O golpe em Bento é avassalador. No velório passa a desconfiar de Capitu, imagina a traição e isto, somado à perda, causa-lhe um pranto descontrolado que o torna incapaz de proferir o discurso no sepultamento do amigo. É neste ponto do romance que emerge a paranóia que transformará Bento no narrador Casmurro.
Bento revela-se incerto sobre a fidelidade da esposa, sobre o que imaginava de Escobar, sobre a paternidade do filho ao qual deu o nome de seu maior amigo. Essas incertezas colocam em xeque sua posição na relação amorosa, na família que construíra e até mesmo na sociedade. Bento torna-se paranóico e, em termos sociológicos, sua paranóia é compreensível não como um mecanismo psíquico diante de sua situação fragilizada. A paranóia do protagonista é a expressão internalizada de forças sociais claramente enunciáveis: as pressões que moldam sua identidade social aceitável, mas que, após a morte do amigo não consegue mais incorporar sem conflitos. A paranóia torna Bento um veículo de expressão das violências que marcam as assimetrias de classe e gênero de sua época, as quais se voltam contra Capitu, mas também contra si mesmo na forma de homofobia.
Compreendo aqui homofobia como a ferramenta de controle social sobre o espectro das relações homossociais e o foco nela como um meio para explorar a constituição social dos gêneros e da sexualidade em oposição a uma abordagem psicologizante que facilmente recai na retórica de uma orientação sexual minoritária. A proposta deste artigo é apresentar uma sociologia dos mecanismos de proibição e controle que constituíram historicamente a heterossexualidade em uma relação oposicional e necessária em relação à homossexualidade. Vale recordar que o enredo de Dom Casmurro se passa no período de invenção desses termos e da patologização e criminalização da homossexualidade.[x]
Na época em que foi escrito o romance (1896-1899), a conservação e reprodução das identidades de gênero tinham se tornado centrais para a nova ordem republicana centrada na família burguesa. Bento torna-se Casmurro ao reiterar as opressões de classe e gênero que estruturavam a ordem social de seu tempo. Neste sentido, sua paranóia une a desconfiança da traição da mulher com o temor da natureza do desejo pelo amigo. Capitu passa a ser vista como a arrivista traidora que lhe tomou até mesmo a virilidade por causa da dúvida sobre a paternidade de Ezequiel. Ela encarna seu fracasso e ameaça seu poder. Escobar torna-se o espectro que coloca em xeque sua masculinidade nas feições do próprio filho e, diante deste fantasma, Bento chega a cogitar o suicídio por envenenamento. Na época, esta modalidade de atentado contra a própria vida era mais associada às mulheres enquanto os homens preferiam se enforcar ou atirar em si mesmos. Assim, o maior ato de desespero do protagonista - não levado a cabo - demonstra como a paranóia o feminizava.
Em termos de relações de poder indissociáveis das de gênero, a vida de Bento foi marcada pela experiência de ser um filho de viúva, ou seja, controlado por uma mulher que até mesmo o prometera à vida religiosa. O futuro eclesiástico era como uma castração e foram duas figuras masculinas que o ajudaram a se libertar dela: o agregado José Dias e, sobretudo, Escobar. Dias auxiliou ao tornar visível e aceitável seu amor pela vizinha Capitu, o que inviabilizaria sua vocação enquanto Escobar teve a idéia que pôs fim ao dilema de sua mãe: substituir Bentinho por um rapaz pobre que seguiria a vida religiosa em seu lugar. Mais adiante, a possível traição de Capitu tira-lhe o poder patriarcal e coloca em dúvida sua paternidade. Desta forma, em sua vida, apenas homens legitimaram Bento enquanto as mulheres ameaçaram seu poder (masculino).
A paranóia de Casmurro, incerto sobre seu poder e sobre sua masculinidade, é o fio condutor da narrativa em que Capitu concentra as atenções por ser, aparentemente, o meio que permitiu superar seu futuro eclesiástico para a ascensão como marido, herdeiro, proprietário e pai, mas por fim tomou-lhe a confiança. No entanto, Capitu é apenas um dos vértices do triângulo amoroso em que Escobar desempenha um papel não menos importante. Afinal, é ele que torna possível a liberação de Bentinho para uma vida agnóstica e é sua morte que precipita o amigo na desconfiança da esposa cujos olhos de ressaca se confundem com o mar bravio no qual perdeu a vida. Sem Escobar, Bento não pode mais prosseguir confiante em seu papel de marido e pai de família.
Machado de Assis apresenta cuidadosamente a importância do elo entre Bentinho e Escobar. Ainda que seja arriscado inferir desejos claramente homoeróticos não é exagero convidar a refletir sobre como tal relação se dava na tênue linha do espectro homossocial em que a relação entre homens é a forma privilegiada de socialização masculina e partilha do poder sobre as mulheres.
As formas da sexualidade e o que conta como sexual em uma sociedade em que o acesso ao poder difere segundo o gênero gera diferenças importantes na estrutura e na constituição da sexualidade. Se levarmos às últimas conseqüências a triangulação amorosa de Dom Casmurro, encontraremos não apenas a centralidade da relação Bento-Escobar, mas, sobretudo, o fato de que o vértice do triângulo, o ponto mais distante da base também é o mais revelador. Assim, é ele que nos (a)ponta para o/a Outro/a não apenas na relação amorosa, mas também nas relações de poder expressas aí onde menos aparecem. Capitu ou Bento, mais do que as personagens, encarnam o simulacro do Outro que se criava na nova ordem social que emergia com o fim do Império.
O triângulo amoroso revela dois vértices em relação a Casmurro. Bento envelhecido e desconfiado torna-se a encarnação da ordem social em que as relações de poder, portanto entre as classes e os gêneros, é defendida como em um tribunal. Os vértices são Capitu, suspeita de traição e arrivismo, e Bento jovem, o que se deixa levar em uma relação (eroticamente) ambígua com o amigo Escobar.
Assim, o triângulo amoroso encontra um de seus vértices em Capitu, mas também em um outro, o próprio Bento antes da “descoberta” da traição. Afinal, o Outro da sociedade brasileira de fins do dezenove não é encarnado em apenas uma identidade social, antes pode ser conhecido como um mosaico dos temores hegemônicos, a criação fantasmagórica de um homem paranóico, Casmurro, um homem perseguido pelas fraturas em sua própria identidade: o amor pela esposa perigosamente portadora de idéias próprias e, sobretudo, a relação com o amigo que lhe dava poder e confiança, mas que arrancada pela morte, ameaça seu poder de uma forma mais difícil de explicar.
Dentro destas novas premissas, o que há de realmente novo e problemático na ordem burguesa emergente no Brasil de fins do dezenove é a problematização das relações entre homens e, ao contrário do que parece à primeira vista, a base do triângulo amoroso repousa na relação Bento-Escobar. Este último, seu comborço, é o espectro que revela uma faceta de Bento na juventude que o maduro Casmurro não consegue compreender nem aceitar.
Referências bibliográficas
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1992.
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_________________. Michel Foucault, uma entrevista: Sexo, Poder e a Política da Identidade. In: Verve – Revista do Nu-Sol. São Paulo: Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP, n.5, maio de 2004, p.260-277.
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MISKOLCI, Richard. Machado de Assis, o Outsider Estabelecido In: Sociologias. Porto Alegre : UFRGS/Programa de Pós-Graduação em Sociologia, 2006. p.352-377.
MURICY, Kátia. A Razão Cética: Machado de Assis e as Questões de seu Tempo. São Paulo: Cia das Letras, 1988.
OLIVEIRA, Pedro Paulo de. A Construção Social da Masculinidade. Belo Horizonte : Editora UFMG, 2004.
SEDGWICK, Eve Kosofsky. Between Men. New York : Columbia University, 1985.
SCHWARZ, Roberto. Duas Meninas. São Paulo : Cia das Letras, 1997.
WELZER-LANG, Daniel, A Construção do Masculino: dominação das mulheres e homofobia (2001). In: Revista Estudos Feministas. Florianópolis
Richard Miskolci
O enredo de Dom Casmurro não poderia ser mais simples. O romance parece um retrato de um bacharel aposentado, Bento Santiago, que narra a história de sua vida a partir de seu amor de juventude. Amor que muda os rumos do rapaz prometido ao sacerdócio, o torna um pater familias, mas também o precipita no fracasso. Que fracasso seria esse? Aparentemente, a descoberta de ter sido duplamente traído: por Capitu, sua esposa, com seu melhor amigo, Escobar.
O romance foi lido como uma história de traição por mais de meio século até que a professora norte-americana Helen Caldwell publicou O Otelo Brasileiro de Machado de Assis (1960), livro em que apontou o intuito crítico de Machado com relação ao narrador. Bento Santiago seria um ser corroído pelos ciúmes, que tenta provar para si e para nós, leitores, que foi traído por aqueles em quem mais confiara. A leitura arguta de Caldwell contribuiu pra que fosse possível reler a obra de Machado sob uma nova ótica e finalmente reconhecê-lo como crítico (velado) da elite brasileira de seu tempo. Desde então percebemos que os romances machadianos ainda trazem enigmas a serem desvelados. No caso de Dom Casmurro, permanece o fato de que essa história de amor ou de traição não é a de um casal, mas de um trio. O romance retrata um triângulo amoroso e uma análise que se desviar de qualquer dos possíveis vértices condenar-se-á à parcialidade.
A leitura que segue ambiciona fugir do mero acúmulo de informações adicionais sobre conhecimento já produzido e reler Dom Casmurro sob uma perspectiva sintonizada com a ousadia dos Estudos Culturais acoplada aos avanços teóricos do feminismo e da Teoria Queer.[i] Ao invés de seguir a já tradicional leitura da obra de Machado centrada na análise por relações de classe, meu intuito é mostrar que outras segregações se cruzavam com as econômicas, particularmente a de gênero. Assim, aqui o triângulo não é compreendido como pirâmide social, antes como uma relação amorosa em que a base é a estrutura que mantinha afastado e apartado o vértice: as identidades recusadas e invisibilizadas pela decadente ordem imperial assim como pela burguesa ascendente.
Qual era a base e qual era o vértice inaceitável para a sociedade brasileira em transição da segunda parte do século XIX? No início, o enredo do romance parece ser o de um namoro proibido que termina em um casamento feliz e na formação de uma família nos moldes burgueses. A surpresa que nos reserva o autor é a da quebra da harmonia com a revelação de que o casal era um triângulo e que a harmonia escondia tensões irresolvidas e talvez até mesmo sem solução.
Durante a segunda metade do século XIX, a sociedade brasileira passou por um processo histórico de reestruturação da ordem familiar que pode ser descrito como a substituição da família patriarcal pela burguesa. O aburguesamento tem na família nuclear monogâmica seu alicerce, o que no período republicano em que foi escrito o romance já era evidente. O drama privado e aparentemente intimista do romance revela-se, assim, mais representativo do contexto social brasileiro do fin-de-siècle do que pareceria à primeira vista.[ii]
A história já começa com o pai de Bentinho morto e sua família vivendo no meio urbano e aburguesado do Rio de Janeiro. O rapaz, filho da viúva Dona Glória, é um prometido ao sacerdócio sem vocação para a religião, mas incapaz de reverter a promessa materna por conta própria. Sua libertação do sacerdócio se dará por uma justificativa amorosa (o amor por Capitu) e, sobretudo, pela perspicaz idéia de seu colega de seminário. Escobar, um jovem com talento para os negócios e também sem vocação religiosa, propõe à mãe de Bentinho que patrocine um rapaz pobre que siga a vocação religiosa no lugar de seu filho. O arranjo, revelador da proeminência do poder econômico nas questões religiosas, liberta Bentinho dos votos maternos e o libera para o casamento.
Debruçado sobre o enigma por trás da transformação do supostamente ingênuo Bentinho no amargo Casmurro, Roberto Schwarz afirma que o ponto de mutação se encontra justamente no casamento com Capitu. O ápice do amor do casal termina por se revelar a ascensão de Bentinho à posição de herdeiro, proprietário e, portanto, seu estabelecimento no topo da hierarquia social e econômica.[iii] Ainda que este aspecto seja importante, o episódio que transmuta Bento não é o casamento, antes a morte de seu amigo. O afogamento de Escobar desnorteia o bacharel, o enche de suspeitas sobre Capitu e vira sua vida pelo avesso.[iv]
O pânico com relação à possível traição não se reduz ao ciúme pela esposa, pois não há limite seguro entre desejar o que alguém tem (Capitu) sem desejar esse alguém (Escobar). Aí a chave da paranóia de Bento Santiago que não se dissocia da incerteza sobre a natureza (ou não) homossexual de seus laços com Escobar. Em nossa sociedade, a relação homossocial masculina é aceitável como normal desde que mediada por uma mulher, mas com a morte de Escobar esta mediação passa a assombrar Bento. Por quê? Talvez porque o ciúme não seja dirigido a Capitu por o ter traído, antes porque a traição teria sido com seu amigo secretamente desejado.
Cabe aqui uma reflexão sobre estas relações homossociais masculinas em que as mulheres sempre estão presentes como mediadoras. Estas relações que fundamentam a heterossexualidade baseiam-se em uma parceria masculina no domínio das mulheres. A mulher é, como já observou Claude Lévi-Strauss, um meio para uma relação em que o verdadeiro parceiro é um homem.[v] Mais do que isso, essa relação entre homens mediada por uma mulher dá um tipo particular de poder a eles, pois permite que – conjuntamente e em simetria com a ordem social - subordinem a mulher (e analogamente todas as outras). Desta forma, adquirem masculinidade contra o feminino encarnado e projetado apenas em mulheres, em suma, representado socialmente naquela que media sua relação homossocial.
Utilizo o conceito de desejo homossocial masculino como sendo a “liga” das relações entre homens baseadas na camaradagem.[vi] Uma combinação estruturada entre homofobia e heterossexualidade compulsória marca as relações de gênero e a própria forma que toma a sexualidade na sociedade burguesa. Assim, aproximamo-nos da compreensão da razão pela qual, em fins do século XIX, as relações entre homens sofreram uma grande mudança. As relações homossociais masculinas passaram a ser socialmente mais controladas, de forma a levar a uma diminuição da intimidade entre homens e a uma reestruturação da amizade como periférica à relação com a mulher dentro da família nuclear.[vii] Este novo contexto fez emergir o temor social com relação à proximidade entre homens, até mesmo porque não há estabilidade garantida em uma relação com uma mulher em uma sociedade em que ela é uma moeda de troca entre os homens.
No contexto em que as relações entre homens passam a ser problematizadas socialmente emerge o que podemos denominar como homofobia, ou seja, um complexo mecanismo social de controle das relações entre homens para que elas mantenham sua função de parceria na dominação masculina das mulheres e não caiam no “perigoso” desejo amoroso por um parceiro do mesmo sexo. A homofobia revela-se, assim, um componente essencial na manutenção de toda uma ordem de poder calcada no domínio das mulheres, no casamento e na manutenção da frágil união monogâmica que forma o núcleo da estrutura familiar burguesa.[viii]
A combinação entre homofobia e domínio das mulheres define o que teóricos queer denominam de dispositivo da heterossexualidade compulsória, o que revela tanto o caráter social e histórico da heteronormatividade quanto sua relação necessária com a supostamente “oposta” homossexualidade.
Estudos históricos recentes permitem afirmar que a sociedade brasileira de fins do dezenove é marcada por essa nova ordem estruturante da sexualidade[ix] e vários romances do período permanecem à espera de análises sob esta perspectiva. No caso de Dom Casmurro, isto se torna visível na relação entre Bentinho e Escobar desde a adolescência vivida no seminário até na vida de casados. No ponto de viragem do enredo, Escobar chega a planejar uma viagem conjunta à Europa, o que provoca em Bento pensamentos eróticos sobre uma possível troca de casais. No dia seguinte, chega a notícia inesperada de seu afogamento. O golpe em Bento é avassalador. No velório passa a desconfiar de Capitu, imagina a traição e isto, somado à perda, causa-lhe um pranto descontrolado que o torna incapaz de proferir o discurso no sepultamento do amigo. É neste ponto do romance que emerge a paranóia que transformará Bento no narrador Casmurro.
Bento revela-se incerto sobre a fidelidade da esposa, sobre o que imaginava de Escobar, sobre a paternidade do filho ao qual deu o nome de seu maior amigo. Essas incertezas colocam em xeque sua posição na relação amorosa, na família que construíra e até mesmo na sociedade. Bento torna-se paranóico e, em termos sociológicos, sua paranóia é compreensível não como um mecanismo psíquico diante de sua situação fragilizada. A paranóia do protagonista é a expressão internalizada de forças sociais claramente enunciáveis: as pressões que moldam sua identidade social aceitável, mas que, após a morte do amigo não consegue mais incorporar sem conflitos. A paranóia torna Bento um veículo de expressão das violências que marcam as assimetrias de classe e gênero de sua época, as quais se voltam contra Capitu, mas também contra si mesmo na forma de homofobia.
Compreendo aqui homofobia como a ferramenta de controle social sobre o espectro das relações homossociais e o foco nela como um meio para explorar a constituição social dos gêneros e da sexualidade em oposição a uma abordagem psicologizante que facilmente recai na retórica de uma orientação sexual minoritária. A proposta deste artigo é apresentar uma sociologia dos mecanismos de proibição e controle que constituíram historicamente a heterossexualidade em uma relação oposicional e necessária em relação à homossexualidade. Vale recordar que o enredo de Dom Casmurro se passa no período de invenção desses termos e da patologização e criminalização da homossexualidade.[x]
Na época em que foi escrito o romance (1896-1899), a conservação e reprodução das identidades de gênero tinham se tornado centrais para a nova ordem republicana centrada na família burguesa. Bento torna-se Casmurro ao reiterar as opressões de classe e gênero que estruturavam a ordem social de seu tempo. Neste sentido, sua paranóia une a desconfiança da traição da mulher com o temor da natureza do desejo pelo amigo. Capitu passa a ser vista como a arrivista traidora que lhe tomou até mesmo a virilidade por causa da dúvida sobre a paternidade de Ezequiel. Ela encarna seu fracasso e ameaça seu poder. Escobar torna-se o espectro que coloca em xeque sua masculinidade nas feições do próprio filho e, diante deste fantasma, Bento chega a cogitar o suicídio por envenenamento. Na época, esta modalidade de atentado contra a própria vida era mais associada às mulheres enquanto os homens preferiam se enforcar ou atirar em si mesmos. Assim, o maior ato de desespero do protagonista - não levado a cabo - demonstra como a paranóia o feminizava.
Em termos de relações de poder indissociáveis das de gênero, a vida de Bento foi marcada pela experiência de ser um filho de viúva, ou seja, controlado por uma mulher que até mesmo o prometera à vida religiosa. O futuro eclesiástico era como uma castração e foram duas figuras masculinas que o ajudaram a se libertar dela: o agregado José Dias e, sobretudo, Escobar. Dias auxiliou ao tornar visível e aceitável seu amor pela vizinha Capitu, o que inviabilizaria sua vocação enquanto Escobar teve a idéia que pôs fim ao dilema de sua mãe: substituir Bentinho por um rapaz pobre que seguiria a vida religiosa em seu lugar. Mais adiante, a possível traição de Capitu tira-lhe o poder patriarcal e coloca em dúvida sua paternidade. Desta forma, em sua vida, apenas homens legitimaram Bento enquanto as mulheres ameaçaram seu poder (masculino).
A paranóia de Casmurro, incerto sobre seu poder e sobre sua masculinidade, é o fio condutor da narrativa em que Capitu concentra as atenções por ser, aparentemente, o meio que permitiu superar seu futuro eclesiástico para a ascensão como marido, herdeiro, proprietário e pai, mas por fim tomou-lhe a confiança. No entanto, Capitu é apenas um dos vértices do triângulo amoroso em que Escobar desempenha um papel não menos importante. Afinal, é ele que torna possível a liberação de Bentinho para uma vida agnóstica e é sua morte que precipita o amigo na desconfiança da esposa cujos olhos de ressaca se confundem com o mar bravio no qual perdeu a vida. Sem Escobar, Bento não pode mais prosseguir confiante em seu papel de marido e pai de família.
Machado de Assis apresenta cuidadosamente a importância do elo entre Bentinho e Escobar. Ainda que seja arriscado inferir desejos claramente homoeróticos não é exagero convidar a refletir sobre como tal relação se dava na tênue linha do espectro homossocial em que a relação entre homens é a forma privilegiada de socialização masculina e partilha do poder sobre as mulheres.
As formas da sexualidade e o que conta como sexual em uma sociedade em que o acesso ao poder difere segundo o gênero gera diferenças importantes na estrutura e na constituição da sexualidade. Se levarmos às últimas conseqüências a triangulação amorosa de Dom Casmurro, encontraremos não apenas a centralidade da relação Bento-Escobar, mas, sobretudo, o fato de que o vértice do triângulo, o ponto mais distante da base também é o mais revelador. Assim, é ele que nos (a)ponta para o/a Outro/a não apenas na relação amorosa, mas também nas relações de poder expressas aí onde menos aparecem. Capitu ou Bento, mais do que as personagens, encarnam o simulacro do Outro que se criava na nova ordem social que emergia com o fim do Império.
O triângulo amoroso revela dois vértices em relação a Casmurro. Bento envelhecido e desconfiado torna-se a encarnação da ordem social em que as relações de poder, portanto entre as classes e os gêneros, é defendida como em um tribunal. Os vértices são Capitu, suspeita de traição e arrivismo, e Bento jovem, o que se deixa levar em uma relação (eroticamente) ambígua com o amigo Escobar.
Assim, o triângulo amoroso encontra um de seus vértices em Capitu, mas também em um outro, o próprio Bento antes da “descoberta” da traição. Afinal, o Outro da sociedade brasileira de fins do dezenove não é encarnado em apenas uma identidade social, antes pode ser conhecido como um mosaico dos temores hegemônicos, a criação fantasmagórica de um homem paranóico, Casmurro, um homem perseguido pelas fraturas em sua própria identidade: o amor pela esposa perigosamente portadora de idéias próprias e, sobretudo, a relação com o amigo que lhe dava poder e confiança, mas que arrancada pela morte, ameaça seu poder de uma forma mais difícil de explicar.
Dentro destas novas premissas, o que há de realmente novo e problemático na ordem burguesa emergente no Brasil de fins do dezenove é a problematização das relações entre homens e, ao contrário do que parece à primeira vista, a base do triângulo amoroso repousa na relação Bento-Escobar. Este último, seu comborço, é o espectro que revela uma faceta de Bento na juventude que o maduro Casmurro não consegue compreender nem aceitar.
Referências bibliográficas
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1992.
BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.
BRISTOW, Joseph. Sexuality. London: Routledge, 1997.
BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
CALDWELL, Helen. O Otelo Brasileiro de Machado de Assis. São Paulo : Ateliê Editorial, 2002.
FOUCAULT, Michel. A Vontade de Saber – História da Sexualidade 1. São Paulo: Graal, 2005.
_________________. Michel Foucault, uma entrevista: Sexo, Poder e a Política da Identidade. In: Verve – Revista do Nu-Sol. São Paulo: Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP, n.5, maio de 2004, p.260-277.
JAGOSE, Annamarie. Queer Theory – An Introduction. New York: New York University Press, 1996.
LÉVI-STRAUSS, Claude. As Estruturas Elementares do Parentesco. Petrópolis : Vozes, 2003.
LOURO, Guacira Lopes. Teoria Queer – Uma Política Pós-Identitária para a Educação. In: Revista Estudos Feministas. Florianópolis: UFSC, v. 9, n. 2, 2001.
MISKOLCI, Richard. Machado de Assis, o Outsider Estabelecido In: Sociologias. Porto Alegre : UFRGS/Programa de Pós-Graduação em Sociologia, 2006. p.352-377.
MURICY, Kátia. A Razão Cética: Machado de Assis e as Questões de seu Tempo. São Paulo: Cia das Letras, 1988.
OLIVEIRA, Pedro Paulo de. A Construção Social da Masculinidade. Belo Horizonte : Editora UFMG, 2004.
SEDGWICK, Eve Kosofsky. Between Men. New York : Columbia University, 1985.
SCHWARZ, Roberto. Duas Meninas. São Paulo : Cia das Letras, 1997.
WELZER-LANG, Daniel, A Construção do Masculino: dominação das mulheres e homofobia (2001). In: Revista Estudos Feministas. Florianópolis
ENTREVISTA DE EMPREGO
AS 12 PERGUNTAS MAIS FREQÜENTES NUMA ENTREVISTA DE EMPREGO
Fonte: Editoria Zap
Por Claudio Moraes*
1. Fale sobre si.
Esta pergunta é quase obrigatória em uma entrevista de emprego e deverá ser muito bem praticada para uma resposta sucinta, direta e, acima de tudo, que valorize o seu perfil profissional.
2. Quais são seus objetivos a curto prazo? E a longo prazo?
Seja específico e tente aproximar, de alguma forma, os seus objetivos aos da própria empresa. Respostas como "ganhar bem" ou "aposentar-se" são totalmente proibidas.
3. O que o levou a enviar o seu currículo a esta empresa?
Aproveite esta deixa para demonstrar que fez o seu "trabalho de casa" e fale sobre a atividade da empresa e a forma como o posicionamento desta a torna uma empresa de elevado interesse para qualquer profissional. Naturalmente, para responder a esta pergunta, é preciso fazer previamente uma pesquisa sobre a empresa. Vá ao site institucional, faça pesquisas usando mecanismos de busca, leia revistas da especialidade e converse com pessoas que trabalham ou já trabalharam lá.
4. Qual foi à decisão mais difícil que tomou até hoje?
O que é pretendido com esta questão, é que os candidatos sejam capazes de identificar uma situação em que tenham sido confrontados com um problema ou dúvida, e que tenham sido capazes de analisar alternativas e conseqüências e decidir da melhor forma.
5. O que procura num emprego?
As hipóteses de resposta são várias: desenvolvimento profissional e pessoal, desafios, envolvimento, participação num projeto ou organização de sucesso, contribuição para o sucesso da sua empresa, etc.
6. Você é capaz de trabalhar sob pressão e com prazos definidos?
Um "não" a esta pergunta pode destruir por completo as suas hipóteses de ser o candidato escolhido. Demonstre-se capaz de trabalhar por prazos e dê exemplos de situações vividas em trabalhos anteriores.
7. Nos dê um motivo para escolhermos você em vez dos outros.
Esta é sempre das perguntas mais complicadas, mas o que se espera é que o candidato saiba "vender" o seu produto. Isto é, deverá focar-se nas suas capacidades e valorizar o seu perfil como o mais adequado para aquela função e a forma como poderá trazer benefícios e lucros para a empresa.
8. O que você faz no seu tempo livre?
Seja sincero, mas, sobretudo lembre-se que os seus hobbies e ocupações demonstram não só a capacidade de gerir o seu tempo, preocupações com o seu desenvolvimento pessoal e facilidade no relacionamento interpessoal.
9. Quais são as suas maiores qualidades?
Aponte aquelas características universalmente relacionadas com um bom profissional: pro atividade, empenho, responsabilidade, entusiasmo, criatividade, persistência, dedicação, iniciativa, competência.
10. E pontos negativos/defeitos?
Naturalmente que a resposta não poderá ser muito negativa, pois serão poucas as hipóteses para um profissional que diga ser desorganizado, desmotivado ou pouco cumpridor dos seus horários. Assim, o truque é responder partindo daquilo que normalmente é considerado uma qualidade agravando-a de forma a parecer um "defeito". Ou seja, exigente demais, perfeccionista, muito auto-crítico, persistente, etc.
11. Que avaliação faz da sua última experiência profissional?
Não se queixe e, em caso algum, critique a empresa e respectivos colaboradores. Diga sempre alguma coisa positiva, ou o ambiente de trabalho ou o produto/serviço da empresa. Se começar a apontar defeitos ao seu emprego anterior correrá o risco de o entrevistador achar que o mesmo pode acontecer no futuro relativamente aquela empresa.
12. Quais foram as experiências profissionais de maior satisfação?
Seja qual for a sua escolha, justifique bem os motivos. Tente mencionar as mais recentes e que sejam mais adequadas aos seus objetivos profissionais.
Fonte: Editoria Zap
Por Claudio Moraes*
1. Fale sobre si.
Esta pergunta é quase obrigatória em uma entrevista de emprego e deverá ser muito bem praticada para uma resposta sucinta, direta e, acima de tudo, que valorize o seu perfil profissional.
2. Quais são seus objetivos a curto prazo? E a longo prazo?
Seja específico e tente aproximar, de alguma forma, os seus objetivos aos da própria empresa. Respostas como "ganhar bem" ou "aposentar-se" são totalmente proibidas.
3. O que o levou a enviar o seu currículo a esta empresa?
Aproveite esta deixa para demonstrar que fez o seu "trabalho de casa" e fale sobre a atividade da empresa e a forma como o posicionamento desta a torna uma empresa de elevado interesse para qualquer profissional. Naturalmente, para responder a esta pergunta, é preciso fazer previamente uma pesquisa sobre a empresa. Vá ao site institucional, faça pesquisas usando mecanismos de busca, leia revistas da especialidade e converse com pessoas que trabalham ou já trabalharam lá.
4. Qual foi à decisão mais difícil que tomou até hoje?
O que é pretendido com esta questão, é que os candidatos sejam capazes de identificar uma situação em que tenham sido confrontados com um problema ou dúvida, e que tenham sido capazes de analisar alternativas e conseqüências e decidir da melhor forma.
5. O que procura num emprego?
As hipóteses de resposta são várias: desenvolvimento profissional e pessoal, desafios, envolvimento, participação num projeto ou organização de sucesso, contribuição para o sucesso da sua empresa, etc.
6. Você é capaz de trabalhar sob pressão e com prazos definidos?
Um "não" a esta pergunta pode destruir por completo as suas hipóteses de ser o candidato escolhido. Demonstre-se capaz de trabalhar por prazos e dê exemplos de situações vividas em trabalhos anteriores.
7. Nos dê um motivo para escolhermos você em vez dos outros.
Esta é sempre das perguntas mais complicadas, mas o que se espera é que o candidato saiba "vender" o seu produto. Isto é, deverá focar-se nas suas capacidades e valorizar o seu perfil como o mais adequado para aquela função e a forma como poderá trazer benefícios e lucros para a empresa.
8. O que você faz no seu tempo livre?
Seja sincero, mas, sobretudo lembre-se que os seus hobbies e ocupações demonstram não só a capacidade de gerir o seu tempo, preocupações com o seu desenvolvimento pessoal e facilidade no relacionamento interpessoal.
9. Quais são as suas maiores qualidades?
Aponte aquelas características universalmente relacionadas com um bom profissional: pro atividade, empenho, responsabilidade, entusiasmo, criatividade, persistência, dedicação, iniciativa, competência.
10. E pontos negativos/defeitos?
Naturalmente que a resposta não poderá ser muito negativa, pois serão poucas as hipóteses para um profissional que diga ser desorganizado, desmotivado ou pouco cumpridor dos seus horários. Assim, o truque é responder partindo daquilo que normalmente é considerado uma qualidade agravando-a de forma a parecer um "defeito". Ou seja, exigente demais, perfeccionista, muito auto-crítico, persistente, etc.
11. Que avaliação faz da sua última experiência profissional?
Não se queixe e, em caso algum, critique a empresa e respectivos colaboradores. Diga sempre alguma coisa positiva, ou o ambiente de trabalho ou o produto/serviço da empresa. Se começar a apontar defeitos ao seu emprego anterior correrá o risco de o entrevistador achar que o mesmo pode acontecer no futuro relativamente aquela empresa.
12. Quais foram as experiências profissionais de maior satisfação?
Seja qual for a sua escolha, justifique bem os motivos. Tente mencionar as mais recentes e que sejam mais adequadas aos seus objetivos profissionais.
GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA
GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA
Dr Marco Aurélio Galletta
A CADA GERAÇÃO, A MENARCA VEM MAIS CEDO
Inicialmente, a mulher moderna amadurece cada vez mais cedo. A menarca, que é a idade da primeira menstruação na mulher, tem sido cada vez mais precoce, ao se considerarem os registros existentes nos últimos 100-200 anos. A cada geração que se passa, a menarca se faz, em média, alguns meses mais cedo. Para se ter uma idéia, em 1845, metade das mulheres ainda não tinham menstruado com a idade de 15 anos. Atualmente a menarca média situa-se por volta dos 12 anos, no Brasil. Possivelmente, melhores condições nutricionais responsabilizam-se por isso. No entanto, variações climáticas e maior exposição a estímulos sexuais visuais precocemente talvez também estejam relacionados, pois se sabe que mulheres de paises nórdicos, com dias curtos e longos invernos, e mulheres cegas, menstruam mais tardemente que as demais. Ora, se as mulheres estão menstruando mais cedo, também estão desenvolvendo características sexuais e se tornando biologicamente férteis mais precocemente do que antes. Se a mulher se torna atraente sexualmente mais cedo, é possível, a princípio, que ela também possa ter relações sexuais mais cedo e, assim, engravidar. Esta é uma boa razão para o aumento da gravidez na adolescência. Mas não é o único, afinal, nem toda mulher com capacidade para engravidar, acaba engravidando.
FATORES SOCIAIS CONTRIBUEM?
É bem verdade que a idade do início da vida sexual tem caído nos últimos anos, mas também é verdadeiro que isso depende muito do grupo social a ser considerado. Em mulheres de favelas do Rio de Janeiro, por exemplo, esta idade se situa por volta dos 12 - 13 anos. No entanto, entre jovens universitárias do Rio Grande do Sul, tal idade está ao redor dos 16 - 17 anos. Ou seja, neste último grupo de mulheres, apesar de estarem menstruando pelo mesmo tempo do que as outras, a opção pela primeira relação sexual foi mais tardia. Assim parece que os contextos social, cultural e econômico são também muito importantes.
ESTRUTURA FAMILIAR INFLUENCIA?
Adolescentes com casos de gestação na adolescência na família parecem ser de risco, para elas também serem gestantes nesta fase da vida, principalmente quando o “exemplo” vem da própria mãe. Outro fator de risco é a pertença a uma família desestruturada, com atritos entre os pais, e especialmente com ausência da figura paterna. Famílias de migrantes, em adaptação a um novo contexto cultural, também apresentam riscos para a presença de uma filha adolescente grávida.
FATORES ECONÔMICOS SÃO DETERMINANTES?
Classicamente se apresenta a situação econômica desfavorável como de risco para a gravidez na adolescência. Isso é algo controverso. Primeiro, porque muitas adolescentes de classe econômica mais favorecida também chegam a engravidar, mas a opção pelo abortamento é mais comum e há mais facilidade para o aborto clandestino efetivo, diminuindo assim a quantidade de partos nestas pacientes. Depois, muitas vezes o contexto econômico se relaciona com o social e o cultural. Infelizmente, a mulher mais pobre tem maior chance de ter uma família desestruturada, migrante, com antecedentes de gestação na adolescência. Além disso, a jovem de tal família tem, muitas vezes, menor escolaridade e acesso dificultado aos serviços de saúde, outros dois fatores de risco conhecidos.
EDUCAÇÃO PODE PREVENIR
A menor escolaridade funciona como fator de risco de duas maneiras. Na primeira, temos menor esclarecimento sobre os métodos anticoncepcionais e um menor entendimento sobre o mundo e sobre sua própria saúde. Num segundo aspecto, a interrupção dos estudos indica falta de perspectiva de vida, principalmente na dita vida social, surgindo poucos planos para o futuro, para sua própria vida. Este é um aspecto que tem chamado nossa atenção nos últimos anos, tanto no Hospital das Clínicas, como em outros locais. Geralmente, a adolescente que engravida já tinha parado seus estudos antes da gravidez, ou faz isso nos primeiros meses da gestação, muitas vezes porque não gostava da escola e não tinha grandes perspectivas de vida, além da possibilidade de ser mãe e dona-de-casa.
ACESSO AOS SERVIÇOS DE SAÚDE
Por outro lado, o não acesso aos serviços de saúde e, assim aos métodos anticoncepcionais, ocorre de duas formas. O não acesso aos serviços de saúde ocorre inicialmente pelo fato muito comum destas jovens morarem em locais distantes, com poucos serviços de saúde à sua disposição. No entanto, a falta de escolaridade contribui ainda mais para ausência de cuidado médico, pois sem esclarecimento, a jovem não percebe a importância do cuidado com a saúde e acaba não fazendo nada neste sentido. Mas, por outro lado, os serviços médicos também não estão estruturados para receberem as adolescentes. A atenção para com elas seria mais de prevenção e orientação e a estrutura está montada mais no aspecto curativo e de assistência às doenças. Assim, tais jovens não procuram assistência, por não acharem isso importante, e a assistência acaba não sendo feita por não estar de acordo com a expectativa da clientela, ou seja, as próprias adolescentes. O não acesso aos serviços de saúde também acaba se relacionando com o desconhecimento e o não uso de anticoncepcionais, fazendo com que a vida sexual destas jovens esteja ainda mais predisposta à gravidez.
TODOS PODEM AJUDAR
Na verdade, a orientação quanto à sexualidade e aos métodos anticoncepcionais é falha em varias instâncias. Tal orientação não necessitaria ser dada apenas pelos profissionais da saúde. A escola e a família poderiam se responsabilizar por isso, mas geralmente não o fazem e, no caso específico das pacientes que atendemos no Hospital das Clínicas, há grande dificuldade de tal orientação vir da família e da escola, pois a jovem está, via de regra, fora da escola e não tem uma família estruturada para apóia-la e orientá-la. O papel do pai neste contexto é fundamental, pois deveria representar o limite, a autoridade, a responsabilidade, valores e qualidades que muito ajudam no correto desenvolvimento não só da sexualidade, como também de todo convívio social do jovem. Neste sentido, sabemos que o conhecimento dos métodos anticoncepcionais, por si só, não representa proteção. Na, maioria das gestantes adolescentes, elas conheciam os métodos, mas não os souberam usar no momento certo. A emoção superou a razão, o que comprova que não havia maturidade suficiente para o exercício responsável da sexualidade. O aprendizado ainda estava por se completar, infelizmente.
Métodos Anticoncepcionais em Adolescentes
Dr. Marco Aurélio Galletta
Uma coisa que muitos me perguntam é por que há tanta adolescente grávida se há tanta informação sobre os métodos anticoncepcionais. Se você entrar na Internet e fizer um mecanismo de busca, vai achar de 2 a 3 mil citações para contracepção em nossos sites brasileiros. Se você ligar a TV, vai ter a informação em programas especiais ou até mesmo em novelas e noticiários. Jornais, revistas para adolescentes, outdoors, praticamente toda a mídia que nos envolve já falou e continua falando sobre os métodos anticoncepcionais. Isto está na conversa das escolas, nas danceterias, nos bares. Até as crianças já ouviram falar de camisinha!...
Lembro-me de um rapaz que, ao dar a notícia em casa de que seria pai aos 15 anos, ouviu da própria irmã, de 8 anos, a reprimenda: “Poxa, você é um bobo! Por que não usou camisinha?!”
Realmente, se uma menina de 8 anos sabe, todo mundo sabe! Assim, é muito interessante esta pergunta: Por que então nossas jovens engravidam tão cedo? Afinal, são cerca de 1 milhão de mulheres abaixo dos 20 anos que engravidam anualmente no Brasil, com aproximadamente 700.000 partos na rede SUS. É muita coisa! E ainda por cima, sabemos que é a única faixa etária com aumento na taxa de natalidade no Brasil. Todas as outras faixas etárias apresentam nítida queda no número de filhos por ano, pois têm um melhor planejamento familiar. Assim, só mantendo o número de partos, sem haver queda, já temos uma participação cada vez maior das adolescentes no número total de partos em nosso país.
Em meu trabalho no Hospital das Clínicas, noto que as adolescentes grávidas que atendo sabem o suficiente sobre anticoncepção. Noventa e dois por cento delas conhecem pelo menos um método anticoncepcional e 60% delas conhecem mais do que 3 métodos. Mais da metade delas já tinha usado algum método e – pasmem! – a média de uso foi de 8 meses!...Destes dados, percebe-se que tais jovens tinham informação... mas engravidaram! Então o que foi que aconteceu?
Acontece que grande parte de minhas pacientes adolescentes desejava a gravidez!
Em trabalho realizado no Setor em 1998 (e que ganhou um prêmio, na época), 60 % destas jovens do HC desejavam a gravidez, enquanto 25% (um quarto) tinham planejado a gravidez e apenas 7% não queriam a gravidez e não aceitavam este fato.Com estes dados, fica claro que a questão não é a informação, ou a falta dela. Há algo muito mais complexo por trás disso.
Tudo tem seu tempo na vida!... A adolescente muitas vezes não tem a maturidade necessária para a vida sexual.
Aspectos Psicológicos nos Jovens
O que atrapalha a adolescente no uso dos métodos anticoncepcionais são suas características psicológicas.A primeira delas é o imediatismo, ou seja, para o adolescente é tudo para hoje, não há amanhã. Assim, ele facilmente se deixa levar pela emoção do momento, sem refletir adequadamente sobre o que deve fazer.
Assim, ele nunca lembra de usar a camisinha ou tomar a pílula.
Outra característica é a onipotência: o adolescente pode tudo! Ele sabe tudo e não precisa de ninguém. Assim, facilmente ele esquece de perguntar como é que se usa direito o método que ele está usando. Prefere engravidar do que “pagar o mico“ de perguntar se é necessário apertar a ponta da camisinha.
Outro aspecto muito associado com este é o pensamento mágico: o adolescente sempre pensa que com ele isso não vai acontecer! Pelo raciocínio ele sabe que há um risco envolvido, mas ele fantasia sobre isso a ponto de acreditar que o risco, para ele, não existe. É como ele se sentisse o Super-Homem, ou a Mulher Maravilha, cheios de poderes!
Por fim, o adolescente está em busca de seus limites e sempre tenta ultrapassá-los, apesar dos riscos envolvidos nisso. É como se prendesse a respiração embaixo d’água várias e sucessivas vezes, como para testar o quanto ele agüenta sem ar. Se hoje consegue ficar 1 minuto deste jeito, amanhã ele vai tentar ficar 2 minutos e daí por diante. Até que, num belo dia ele fica sem usar camisinha uma vez para ver o que acontece. Não acontecendo nada, ele repete a dose, até que algo realmente aconteça.
Por essas e por outras que a atividade sexual na adolescência é sempre complicada e arriscada. E é por isso que as campanhas do governo, de distribuição de camisinhas e pílulas, geralmente não dão resultado. Não basta ter a camisinha na mão, é preciso saber - e querer – usar direito!
Um último aspecto é ainda mais delicado e complexo.
Quase toda mulher tem o desejo de engravidar. A adolescente também tem este desejo dentro de si. Então por que a maioria das mulheres jovens não engravida? Porque elas têm um projeto de vida que as faz adiar esta idéia de serem mães. Agora, imagine se a menina não tem perspectivas de estudo, de realização profissional, em suma, não tem um sonho mais concreto para sua vida. O que lhe impede de ser mãe? Nada!... ou quase nada...Se ela tivesse um adulto em quem confiasse e que lhe ajudasse a nortear suas decisões, as coisas ficariam mais fáceis. No entanto, a maioria das nossas adolescentes grávidas não tem um bom relacionamento nem com o pai, nem com a mãe, e a maioria já saiu da escola e não tem amigos. Com quem então falar, para pedir conselhos? Quem a ajudará a tomar decisões acertadas, a não se levar pelo impulso? Quem ajudará a dar limites, a dizer que por aí não, porque é muito perigoso? Ninguém...
Por essas e por outras é que há muitas adolescentes grávidas. Seu número não tende a cair tão fácil, simplesmente porque o problema não é só delas, mas sim de todos nós.
O contrato de casamento
Stephen Kanitz - Revista Veja – 26/09/04
Na semana passada, comemorei trinta anos de casamento. Recebemos dezenas de congratulações de nossos amigos, alguns com o seguinte adendo assustador: "Coisa rara hoje em dia". De fato, 40% de meus amigos de infância já se separaram, e o filme ainda nem terminou. Pelo jeito, estamos nos esquecendo da essência do contrato de casamento, que é a promessa de amar o outro para sempre. Muitos casais no altar acreditam que estão prometendo amar um ao outro enquanto o casamento durar. Mas isso não é um contrato.
Recentemente, vi um filme em que o mocinho terminava o namoro dizendo "vou sempre amar você", como se fosse um prêmio de consolação. Banalizamos a frase mais importante do casamento. Hoje, promete-se amar o cônjuge até o dia em que alguém mais interessante apareça. "Eu amarei você para sempre" deixou de ser uma promessa social e passou a ser simplesmente uma frase dita para enganar o outro. Contratos, inclusive os de casamento, são realizados justamente porque o futuro é incerto e imprevisível.
Antigamente, os casamentos eram feitos aos 20 anos de idade, depois de uns três anos de namoro. A chance de você encontrar sua alma gêmea nesse curto período de pesquisa era de somente 10%, enquanto 90% das mulheres e homens de sua vida você iria conhecer provavelmente já depois de casado. Estatisticamente, o homem ou a mulher "ideal" para você aparecerá somente, de fato, depois do casamento, não antes. Isso significa que provavelmente seu "verdadeiro amor" estará no grupo que você ainda não conhece, e não no grupinho de cerca de noventa amigos da adolescência, do qual saiu seu par. E aí, o que fazer? Pedir divórcio, separar-se também dos filhos, só porque deu azar?
O contrato de casamento foi feito para resolver justamente esse problema. Nunca temos na vida todas as informações necessárias para tomar as decisões corretas. As promessas e os contratos preenchem essa lacuna, preenchem essa incerteza, sem a qual ficaríamos todos paralisados à espera de mais informação. Quando você promete amar alguém para sempre, está prometendo o seguinte: "Eu sei que nós dois somos jovens e que vamos viver até os 80 anos de idade. Sei que fatalmente encontrarei centenas de mulheres mais bonitas e mais inteligentes que você ao longo de minha vida e que você encontrará dezenas de homens mais bonitos e mais inteligentes que eu. É justamente por isso que prometo amar você para sempre e abrir mão desde já dessas dezenas de oportunidades conjugais que surgirão em meu futuro. Não quero ficar morrendo de ciúme cada vez que você conversar com um homem sensual nem ficar preocupado com o futuro de nosso relacionamento. Nem você vai querer ficar preocupada cada vez que eu conversar com uma mulher provocante. Prometo amar você para sempre, para que possamos nos casar e viver em harmonia".
Homens e mulheres que conheceram alguém "melhor" e acham agora que cometeram enorme erro quando se casaram com o atual cônjuge esqueceram a premissa básica e o espírito do contrato de casamento. O objetivo do casamento não é escolher o melhor par possível mundo afora, mas construir o melhor relacionamento possível com quem você prometeu amar para sempre. Um dia vocês terão filhos e ao colocá-los na cama dirão a mesma frase: que irão amá-los para sempre. Não conheço pais que pensam em trocar os filhos pelos filhos mais comportados do vizinho. Não conheço filho que aceite, de início, a separação dos pais e, quando estes se separam, não sonhe com a reconciliação da família. Nem conheço filho que queira trocar os pais por outros "melhores". Eles aprendem a conviver com os pais que têm.
Casamento é o compromisso de aprender a resolver as brigas e as rusgas do dia-a-dia de forma construtiva, o que muitos casais não aprendem, e alguns nem tentam aprender. Obviamente, se sua esposa se transformou numa megera ou seu marido num monstro, ou se fizeram propaganda enganosa, a situação muda, e num próximo artigo falarei sobre esse assunto. Para aqueles que querem ter vantagem em tudo na vida, talvez a saída seja postergar o casamento até os 80 anos. Aí, você terá certeza de tudo.
Questão: a partir dos textos, respondam como a sociedade moderna tem influenciado os relacionamentos amorosos, a sexualidade e as perspectivas dos jovens em relação ao casamento? O que há de diferente e semelhante, por exemplo, em às suas escolhas e as escolhas dos seus pais?
Dr Marco Aurélio Galletta
A CADA GERAÇÃO, A MENARCA VEM MAIS CEDO
Inicialmente, a mulher moderna amadurece cada vez mais cedo. A menarca, que é a idade da primeira menstruação na mulher, tem sido cada vez mais precoce, ao se considerarem os registros existentes nos últimos 100-200 anos. A cada geração que se passa, a menarca se faz, em média, alguns meses mais cedo. Para se ter uma idéia, em 1845, metade das mulheres ainda não tinham menstruado com a idade de 15 anos. Atualmente a menarca média situa-se por volta dos 12 anos, no Brasil. Possivelmente, melhores condições nutricionais responsabilizam-se por isso. No entanto, variações climáticas e maior exposição a estímulos sexuais visuais precocemente talvez também estejam relacionados, pois se sabe que mulheres de paises nórdicos, com dias curtos e longos invernos, e mulheres cegas, menstruam mais tardemente que as demais. Ora, se as mulheres estão menstruando mais cedo, também estão desenvolvendo características sexuais e se tornando biologicamente férteis mais precocemente do que antes. Se a mulher se torna atraente sexualmente mais cedo, é possível, a princípio, que ela também possa ter relações sexuais mais cedo e, assim, engravidar. Esta é uma boa razão para o aumento da gravidez na adolescência. Mas não é o único, afinal, nem toda mulher com capacidade para engravidar, acaba engravidando.
FATORES SOCIAIS CONTRIBUEM?
É bem verdade que a idade do início da vida sexual tem caído nos últimos anos, mas também é verdadeiro que isso depende muito do grupo social a ser considerado. Em mulheres de favelas do Rio de Janeiro, por exemplo, esta idade se situa por volta dos 12 - 13 anos. No entanto, entre jovens universitárias do Rio Grande do Sul, tal idade está ao redor dos 16 - 17 anos. Ou seja, neste último grupo de mulheres, apesar de estarem menstruando pelo mesmo tempo do que as outras, a opção pela primeira relação sexual foi mais tardia. Assim parece que os contextos social, cultural e econômico são também muito importantes.
ESTRUTURA FAMILIAR INFLUENCIA?
Adolescentes com casos de gestação na adolescência na família parecem ser de risco, para elas também serem gestantes nesta fase da vida, principalmente quando o “exemplo” vem da própria mãe. Outro fator de risco é a pertença a uma família desestruturada, com atritos entre os pais, e especialmente com ausência da figura paterna. Famílias de migrantes, em adaptação a um novo contexto cultural, também apresentam riscos para a presença de uma filha adolescente grávida.
FATORES ECONÔMICOS SÃO DETERMINANTES?
Classicamente se apresenta a situação econômica desfavorável como de risco para a gravidez na adolescência. Isso é algo controverso. Primeiro, porque muitas adolescentes de classe econômica mais favorecida também chegam a engravidar, mas a opção pelo abortamento é mais comum e há mais facilidade para o aborto clandestino efetivo, diminuindo assim a quantidade de partos nestas pacientes. Depois, muitas vezes o contexto econômico se relaciona com o social e o cultural. Infelizmente, a mulher mais pobre tem maior chance de ter uma família desestruturada, migrante, com antecedentes de gestação na adolescência. Além disso, a jovem de tal família tem, muitas vezes, menor escolaridade e acesso dificultado aos serviços de saúde, outros dois fatores de risco conhecidos.
EDUCAÇÃO PODE PREVENIR
A menor escolaridade funciona como fator de risco de duas maneiras. Na primeira, temos menor esclarecimento sobre os métodos anticoncepcionais e um menor entendimento sobre o mundo e sobre sua própria saúde. Num segundo aspecto, a interrupção dos estudos indica falta de perspectiva de vida, principalmente na dita vida social, surgindo poucos planos para o futuro, para sua própria vida. Este é um aspecto que tem chamado nossa atenção nos últimos anos, tanto no Hospital das Clínicas, como em outros locais. Geralmente, a adolescente que engravida já tinha parado seus estudos antes da gravidez, ou faz isso nos primeiros meses da gestação, muitas vezes porque não gostava da escola e não tinha grandes perspectivas de vida, além da possibilidade de ser mãe e dona-de-casa.
ACESSO AOS SERVIÇOS DE SAÚDE
Por outro lado, o não acesso aos serviços de saúde e, assim aos métodos anticoncepcionais, ocorre de duas formas. O não acesso aos serviços de saúde ocorre inicialmente pelo fato muito comum destas jovens morarem em locais distantes, com poucos serviços de saúde à sua disposição. No entanto, a falta de escolaridade contribui ainda mais para ausência de cuidado médico, pois sem esclarecimento, a jovem não percebe a importância do cuidado com a saúde e acaba não fazendo nada neste sentido. Mas, por outro lado, os serviços médicos também não estão estruturados para receberem as adolescentes. A atenção para com elas seria mais de prevenção e orientação e a estrutura está montada mais no aspecto curativo e de assistência às doenças. Assim, tais jovens não procuram assistência, por não acharem isso importante, e a assistência acaba não sendo feita por não estar de acordo com a expectativa da clientela, ou seja, as próprias adolescentes. O não acesso aos serviços de saúde também acaba se relacionando com o desconhecimento e o não uso de anticoncepcionais, fazendo com que a vida sexual destas jovens esteja ainda mais predisposta à gravidez.
TODOS PODEM AJUDAR
Na verdade, a orientação quanto à sexualidade e aos métodos anticoncepcionais é falha em varias instâncias. Tal orientação não necessitaria ser dada apenas pelos profissionais da saúde. A escola e a família poderiam se responsabilizar por isso, mas geralmente não o fazem e, no caso específico das pacientes que atendemos no Hospital das Clínicas, há grande dificuldade de tal orientação vir da família e da escola, pois a jovem está, via de regra, fora da escola e não tem uma família estruturada para apóia-la e orientá-la. O papel do pai neste contexto é fundamental, pois deveria representar o limite, a autoridade, a responsabilidade, valores e qualidades que muito ajudam no correto desenvolvimento não só da sexualidade, como também de todo convívio social do jovem. Neste sentido, sabemos que o conhecimento dos métodos anticoncepcionais, por si só, não representa proteção. Na, maioria das gestantes adolescentes, elas conheciam os métodos, mas não os souberam usar no momento certo. A emoção superou a razão, o que comprova que não havia maturidade suficiente para o exercício responsável da sexualidade. O aprendizado ainda estava por se completar, infelizmente.
Métodos Anticoncepcionais em Adolescentes
Dr. Marco Aurélio Galletta
Uma coisa que muitos me perguntam é por que há tanta adolescente grávida se há tanta informação sobre os métodos anticoncepcionais. Se você entrar na Internet e fizer um mecanismo de busca, vai achar de 2 a 3 mil citações para contracepção em nossos sites brasileiros. Se você ligar a TV, vai ter a informação em programas especiais ou até mesmo em novelas e noticiários. Jornais, revistas para adolescentes, outdoors, praticamente toda a mídia que nos envolve já falou e continua falando sobre os métodos anticoncepcionais. Isto está na conversa das escolas, nas danceterias, nos bares. Até as crianças já ouviram falar de camisinha!...
Lembro-me de um rapaz que, ao dar a notícia em casa de que seria pai aos 15 anos, ouviu da própria irmã, de 8 anos, a reprimenda: “Poxa, você é um bobo! Por que não usou camisinha?!”
Realmente, se uma menina de 8 anos sabe, todo mundo sabe! Assim, é muito interessante esta pergunta: Por que então nossas jovens engravidam tão cedo? Afinal, são cerca de 1 milhão de mulheres abaixo dos 20 anos que engravidam anualmente no Brasil, com aproximadamente 700.000 partos na rede SUS. É muita coisa! E ainda por cima, sabemos que é a única faixa etária com aumento na taxa de natalidade no Brasil. Todas as outras faixas etárias apresentam nítida queda no número de filhos por ano, pois têm um melhor planejamento familiar. Assim, só mantendo o número de partos, sem haver queda, já temos uma participação cada vez maior das adolescentes no número total de partos em nosso país.
Em meu trabalho no Hospital das Clínicas, noto que as adolescentes grávidas que atendo sabem o suficiente sobre anticoncepção. Noventa e dois por cento delas conhecem pelo menos um método anticoncepcional e 60% delas conhecem mais do que 3 métodos. Mais da metade delas já tinha usado algum método e – pasmem! – a média de uso foi de 8 meses!...Destes dados, percebe-se que tais jovens tinham informação... mas engravidaram! Então o que foi que aconteceu?
Acontece que grande parte de minhas pacientes adolescentes desejava a gravidez!
Em trabalho realizado no Setor em 1998 (e que ganhou um prêmio, na época), 60 % destas jovens do HC desejavam a gravidez, enquanto 25% (um quarto) tinham planejado a gravidez e apenas 7% não queriam a gravidez e não aceitavam este fato.Com estes dados, fica claro que a questão não é a informação, ou a falta dela. Há algo muito mais complexo por trás disso.
Tudo tem seu tempo na vida!... A adolescente muitas vezes não tem a maturidade necessária para a vida sexual.
Aspectos Psicológicos nos Jovens
O que atrapalha a adolescente no uso dos métodos anticoncepcionais são suas características psicológicas.A primeira delas é o imediatismo, ou seja, para o adolescente é tudo para hoje, não há amanhã. Assim, ele facilmente se deixa levar pela emoção do momento, sem refletir adequadamente sobre o que deve fazer.
Assim, ele nunca lembra de usar a camisinha ou tomar a pílula.
Outra característica é a onipotência: o adolescente pode tudo! Ele sabe tudo e não precisa de ninguém. Assim, facilmente ele esquece de perguntar como é que se usa direito o método que ele está usando. Prefere engravidar do que “pagar o mico“ de perguntar se é necessário apertar a ponta da camisinha.
Outro aspecto muito associado com este é o pensamento mágico: o adolescente sempre pensa que com ele isso não vai acontecer! Pelo raciocínio ele sabe que há um risco envolvido, mas ele fantasia sobre isso a ponto de acreditar que o risco, para ele, não existe. É como ele se sentisse o Super-Homem, ou a Mulher Maravilha, cheios de poderes!
Por fim, o adolescente está em busca de seus limites e sempre tenta ultrapassá-los, apesar dos riscos envolvidos nisso. É como se prendesse a respiração embaixo d’água várias e sucessivas vezes, como para testar o quanto ele agüenta sem ar. Se hoje consegue ficar 1 minuto deste jeito, amanhã ele vai tentar ficar 2 minutos e daí por diante. Até que, num belo dia ele fica sem usar camisinha uma vez para ver o que acontece. Não acontecendo nada, ele repete a dose, até que algo realmente aconteça.
Por essas e por outras que a atividade sexual na adolescência é sempre complicada e arriscada. E é por isso que as campanhas do governo, de distribuição de camisinhas e pílulas, geralmente não dão resultado. Não basta ter a camisinha na mão, é preciso saber - e querer – usar direito!
Um último aspecto é ainda mais delicado e complexo.
Quase toda mulher tem o desejo de engravidar. A adolescente também tem este desejo dentro de si. Então por que a maioria das mulheres jovens não engravida? Porque elas têm um projeto de vida que as faz adiar esta idéia de serem mães. Agora, imagine se a menina não tem perspectivas de estudo, de realização profissional, em suma, não tem um sonho mais concreto para sua vida. O que lhe impede de ser mãe? Nada!... ou quase nada...Se ela tivesse um adulto em quem confiasse e que lhe ajudasse a nortear suas decisões, as coisas ficariam mais fáceis. No entanto, a maioria das nossas adolescentes grávidas não tem um bom relacionamento nem com o pai, nem com a mãe, e a maioria já saiu da escola e não tem amigos. Com quem então falar, para pedir conselhos? Quem a ajudará a tomar decisões acertadas, a não se levar pelo impulso? Quem ajudará a dar limites, a dizer que por aí não, porque é muito perigoso? Ninguém...
Por essas e por outras é que há muitas adolescentes grávidas. Seu número não tende a cair tão fácil, simplesmente porque o problema não é só delas, mas sim de todos nós.
O contrato de casamento
Stephen Kanitz - Revista Veja – 26/09/04
Na semana passada, comemorei trinta anos de casamento. Recebemos dezenas de congratulações de nossos amigos, alguns com o seguinte adendo assustador: "Coisa rara hoje em dia". De fato, 40% de meus amigos de infância já se separaram, e o filme ainda nem terminou. Pelo jeito, estamos nos esquecendo da essência do contrato de casamento, que é a promessa de amar o outro para sempre. Muitos casais no altar acreditam que estão prometendo amar um ao outro enquanto o casamento durar. Mas isso não é um contrato.
Recentemente, vi um filme em que o mocinho terminava o namoro dizendo "vou sempre amar você", como se fosse um prêmio de consolação. Banalizamos a frase mais importante do casamento. Hoje, promete-se amar o cônjuge até o dia em que alguém mais interessante apareça. "Eu amarei você para sempre" deixou de ser uma promessa social e passou a ser simplesmente uma frase dita para enganar o outro. Contratos, inclusive os de casamento, são realizados justamente porque o futuro é incerto e imprevisível.
Antigamente, os casamentos eram feitos aos 20 anos de idade, depois de uns três anos de namoro. A chance de você encontrar sua alma gêmea nesse curto período de pesquisa era de somente 10%, enquanto 90% das mulheres e homens de sua vida você iria conhecer provavelmente já depois de casado. Estatisticamente, o homem ou a mulher "ideal" para você aparecerá somente, de fato, depois do casamento, não antes. Isso significa que provavelmente seu "verdadeiro amor" estará no grupo que você ainda não conhece, e não no grupinho de cerca de noventa amigos da adolescência, do qual saiu seu par. E aí, o que fazer? Pedir divórcio, separar-se também dos filhos, só porque deu azar?
O contrato de casamento foi feito para resolver justamente esse problema. Nunca temos na vida todas as informações necessárias para tomar as decisões corretas. As promessas e os contratos preenchem essa lacuna, preenchem essa incerteza, sem a qual ficaríamos todos paralisados à espera de mais informação. Quando você promete amar alguém para sempre, está prometendo o seguinte: "Eu sei que nós dois somos jovens e que vamos viver até os 80 anos de idade. Sei que fatalmente encontrarei centenas de mulheres mais bonitas e mais inteligentes que você ao longo de minha vida e que você encontrará dezenas de homens mais bonitos e mais inteligentes que eu. É justamente por isso que prometo amar você para sempre e abrir mão desde já dessas dezenas de oportunidades conjugais que surgirão em meu futuro. Não quero ficar morrendo de ciúme cada vez que você conversar com um homem sensual nem ficar preocupado com o futuro de nosso relacionamento. Nem você vai querer ficar preocupada cada vez que eu conversar com uma mulher provocante. Prometo amar você para sempre, para que possamos nos casar e viver em harmonia".
Homens e mulheres que conheceram alguém "melhor" e acham agora que cometeram enorme erro quando se casaram com o atual cônjuge esqueceram a premissa básica e o espírito do contrato de casamento. O objetivo do casamento não é escolher o melhor par possível mundo afora, mas construir o melhor relacionamento possível com quem você prometeu amar para sempre. Um dia vocês terão filhos e ao colocá-los na cama dirão a mesma frase: que irão amá-los para sempre. Não conheço pais que pensam em trocar os filhos pelos filhos mais comportados do vizinho. Não conheço filho que aceite, de início, a separação dos pais e, quando estes se separam, não sonhe com a reconciliação da família. Nem conheço filho que queira trocar os pais por outros "melhores". Eles aprendem a conviver com os pais que têm.
Casamento é o compromisso de aprender a resolver as brigas e as rusgas do dia-a-dia de forma construtiva, o que muitos casais não aprendem, e alguns nem tentam aprender. Obviamente, se sua esposa se transformou numa megera ou seu marido num monstro, ou se fizeram propaganda enganosa, a situação muda, e num próximo artigo falarei sobre esse assunto. Para aqueles que querem ter vantagem em tudo na vida, talvez a saída seja postergar o casamento até os 80 anos. Aí, você terá certeza de tudo.
Questão: a partir dos textos, respondam como a sociedade moderna tem influenciado os relacionamentos amorosos, a sexualidade e as perspectivas dos jovens em relação ao casamento? O que há de diferente e semelhante, por exemplo, em às suas escolhas e as escolhas dos seus pais?
O que é ideologia?
Ideologia é “um conjunto de inverdades difundidas através de idéias falsas, símbolos, preconceitos, propagandas e “slogans” para neutralizar e dominar aqueles que historicamente pertencem à classe dos dominados, sem que eles se percebam como sendo dominados.
Você já percebeu que, quando uma notícia que relata alguma crise social ou política é apresentada – por exemplo, uma greve -, em seguida se apresenta uma outra notícia que tenha um tom de espetacular, de curioso, de fantástico? Isso acontece para desviar a atenção das pessoas e para que elas pensem que é tudo natural. A ideologia trabalha para esconder as diferenças sociais, passando uma imagem de que todos somos iguais. No máximo ela admite que há uma divisão (é evidente, que é impossível negá-la) porque : “o indivíduo é pobre porque quer”, “quem não estuda não progride na vida”, “os pobres são pobres porque querem”, “a pobreza é abençoada por Deus”. A ideologia é um fator de estabilização social.
A ideologia nos meios de comunicação
Os meios de comunicação são na atualidade um dos maiores veículos de transmissão e imposição da ideologia dominante: em cores, ao vivo e com som! São várias as formas usadas pelos meios de comunicação para impor a ideologia dominante (burguesa e capitalista). Vejamos algumas:
a) a ideologia do consumismo: o capitalismo tem o poder de transformar tudo em mercadoria: o “dia das mães”, “dos namorados”, “das crianças”, etc. A cada festa, mais lucro para o capitalista... mais pobreza, porém, para a consciência de boa parte dos consumidores, que já perdeu a capacidade de tomar uma atitude de crítica diante do fato de dar e receber presentes. O importante é ter e não ser. O amor e a amizade são traduzidos pelo ter, pelo possuir, pelo presentear, muitas vezes esquecendo o verdadeiro significado do amor e da amizade. Seguindo a ideologia do consumismo quantas pessoas compram coisas que nunca irão usar. Compram porque foram induzidas, forçadas pela propaganda. Muitas vezes a propaganda amortece a capacidade crítica do indivíduo, transformando-o num robô consumista. Quantas propagandas são enganosas porque não dizem realmente a verdade sobre o produto apresentado. Outras são imorais – não porque apelam para o nu – mas porque apelam para a mentira, para a chantagem emocional, para a destruição dos valores morais ou sociais;
b) a ideologia da moda – também uma característica do capitalismo, que, precisando a cada instante do lucro, busca na moda uma imposição dos seus padrões. A moda do verão, do inverno, do natal, da praia, do esporte...e assim, explora-se duplamente o trabalhador: pagando-lhe um salário de miséria e sugando-lhe este pouco salário através do consumismo e da moda.
c) a ideologia imperialista: isto é, a ideologia das multinacionais e das nações ricas, manifesta e expressa nos “enlatados” (filmes) e “shows fantásticos” que mostram o modo de vida das nações ditas desenvolvidas. É como que uma ordem que diz: “Oh! Lá eles fazem assim. Isso é o moderno. Esse é o padrão de um povo desenvolvido...precisamos chegar lá!
d) a ideologia da segregação – que se manifesta no racismo, na condição de inferioridade da mulher ou do pobre e, por conseguinte, na exaltação da riqueza, da força do homem, no elogio ao esperto, na superioridade do homem estudado, etc. Observe como são os cenários das novelas: que belos apartamentos, que belas salas, que ricas modas. Mesmo os pobres nas novelas têm carro, vivem em casas onde os móveis têm um padrão de classe média, sem fome e copos de estrato de tomate. Não se explica de onde vem o dinheiro e tudo parece perfeito, com homens engravatados e mulheres maquiladas. No fundo, a ideologia faz com que o trabalhador, que produz quase tudo que aparece na TV e que não pode possuir bens, se console em ver tudo isso...e, se possível, em cores!
Bibliografia: SOUZA, Ari Herculano. A ideologia. Editora do Brasil, 1989.
Você já percebeu que, quando uma notícia que relata alguma crise social ou política é apresentada – por exemplo, uma greve -, em seguida se apresenta uma outra notícia que tenha um tom de espetacular, de curioso, de fantástico? Isso acontece para desviar a atenção das pessoas e para que elas pensem que é tudo natural. A ideologia trabalha para esconder as diferenças sociais, passando uma imagem de que todos somos iguais. No máximo ela admite que há uma divisão (é evidente, que é impossível negá-la) porque : “o indivíduo é pobre porque quer”, “quem não estuda não progride na vida”, “os pobres são pobres porque querem”, “a pobreza é abençoada por Deus”. A ideologia é um fator de estabilização social.
A ideologia nos meios de comunicação
Os meios de comunicação são na atualidade um dos maiores veículos de transmissão e imposição da ideologia dominante: em cores, ao vivo e com som! São várias as formas usadas pelos meios de comunicação para impor a ideologia dominante (burguesa e capitalista). Vejamos algumas:
a) a ideologia do consumismo: o capitalismo tem o poder de transformar tudo em mercadoria: o “dia das mães”, “dos namorados”, “das crianças”, etc. A cada festa, mais lucro para o capitalista... mais pobreza, porém, para a consciência de boa parte dos consumidores, que já perdeu a capacidade de tomar uma atitude de crítica diante do fato de dar e receber presentes. O importante é ter e não ser. O amor e a amizade são traduzidos pelo ter, pelo possuir, pelo presentear, muitas vezes esquecendo o verdadeiro significado do amor e da amizade. Seguindo a ideologia do consumismo quantas pessoas compram coisas que nunca irão usar. Compram porque foram induzidas, forçadas pela propaganda. Muitas vezes a propaganda amortece a capacidade crítica do indivíduo, transformando-o num robô consumista. Quantas propagandas são enganosas porque não dizem realmente a verdade sobre o produto apresentado. Outras são imorais – não porque apelam para o nu – mas porque apelam para a mentira, para a chantagem emocional, para a destruição dos valores morais ou sociais;
b) a ideologia da moda – também uma característica do capitalismo, que, precisando a cada instante do lucro, busca na moda uma imposição dos seus padrões. A moda do verão, do inverno, do natal, da praia, do esporte...e assim, explora-se duplamente o trabalhador: pagando-lhe um salário de miséria e sugando-lhe este pouco salário através do consumismo e da moda.
c) a ideologia imperialista: isto é, a ideologia das multinacionais e das nações ricas, manifesta e expressa nos “enlatados” (filmes) e “shows fantásticos” que mostram o modo de vida das nações ditas desenvolvidas. É como que uma ordem que diz: “Oh! Lá eles fazem assim. Isso é o moderno. Esse é o padrão de um povo desenvolvido...precisamos chegar lá!
d) a ideologia da segregação – que se manifesta no racismo, na condição de inferioridade da mulher ou do pobre e, por conseguinte, na exaltação da riqueza, da força do homem, no elogio ao esperto, na superioridade do homem estudado, etc. Observe como são os cenários das novelas: que belos apartamentos, que belas salas, que ricas modas. Mesmo os pobres nas novelas têm carro, vivem em casas onde os móveis têm um padrão de classe média, sem fome e copos de estrato de tomate. Não se explica de onde vem o dinheiro e tudo parece perfeito, com homens engravatados e mulheres maquiladas. No fundo, a ideologia faz com que o trabalhador, que produz quase tudo que aparece na TV e que não pode possuir bens, se console em ver tudo isso...e, se possível, em cores!
Bibliografia: SOUZA, Ari Herculano. A ideologia. Editora do Brasil, 1989.
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